01

CONTAGEM REGRESSIVA


Dez segundos.

Foi bom nascer novamente.

Apesar da solidão, apesar de tantas agruras e de quaisquer pesares: era muito bom estar vivo.

VOCÊ É O SEGUNDO. O NEXUS O CRIOU QUANDO O PRIMEIRO PARTIU.

- Parece que há uma intenção por trás disso.

HÁ UMA INTENÇÃO POR TRÁS DE TUDO.

Nove segundos.

- Existem milhões de planetas como a Terra espalhados por nossa galáxia – e galáxias sem fim no universo. Em toda essa imensidão, cada um de nós é único… Não destrua aquele que se chama Kirk.

McCoy estava certo, ainda que não houvesse precisão em suas palavras. Não havia apenas um James T. Kirk: no multiverso, cada ser possui versões infinitas de si mesmo, variações ínfimas ou extremas sobre um mesmo tema.

Entretanto, o produto de cada variação, de cada flutuação da realidade é exclusivo… Um átomo ou um mundo, não importa: a marca da diferença é uma constante.

Oito.

- Dê liberdade ao homem e ele a utilizará para dar curso à sua capacidade ilimitada de odiar.

- É uma de suas possibilidades. Mas ele o fará com certeza se for privado da liberdade, Dr. Zaius.

- Engana-se, Kirk. Depois que você partiu, conseguimos alterar os rumos de sua guerra suja e sangrenta – e sem grande esforço. Construímos jaulas confortáveis, oferecemos distrações, ilusões… E isso bastou para que os homens se rendessem e se submetessem novamente a nós. Veja, os homens agora trabalham para os macacos em troca de segurança, pão e circo. Não em troca de liberdade…

Sete.

- Então, o mundo será consertado – disse Jor-El, consciente de sua verdadeira força pela primeira vez desde que chegara à Terra.

- E feito à sua imagem? – Kirk manteve a voz firme, mas estava começando a ficar preocupado. O kryptoniano era a encarnação de um poder muito acima dos humanos. O que aconteceria se ele se tornasse uma ameaça?

- Não… claro que não. Mas há uma sombra que deve ser detida. Uma sombra que pode cobrir todo o planeta: Thomas Wayne, o governante de Gotham. Alguém precisa detê-lo… Alguém precisa destruir tudo o que ele representa.

Seis.

- James Kirk, eu presumo.

- Você está em vantagem… Qual o seu nome?

A mulher sorriu – o que a tornava ainda mais bela. O nascer dos sóis nos mares esmeraldas de Amagash teria sido eclipsado facilmente.

- Anna.

- Só Anna?

- Anna… Q.

- “Q”?

- Quê?

- Não seria “Q” de Q continuum, seria?

A pergunta pareceria totalmente descabida em qualquer outra realidade – todavia, eles estavam na Terra Um. Ali, todas as impossibilidades pareciam convergir para o possível.

- Você conhece o Q continuum?

Kirk não demonstrou qualquer surpresa.

- Já ouvi falar.

- Bom… saí de lá. Tornei-me mortal.

- Por livre e espontânea vontade?

- Como já disseram por aí, a onipotência é um tédio. Gosto da sensação de perigo que há na essência da mortalidade.

- Muitos gostariam de fazer o caminho contrário…

- Alguns fizeram. Seu amigo Decker, por exemplo.

- Conheceu V’ger?

- Cara curioso. Meio esquisitão. Sempre tentando consertar as coisas… Mas vamos voltar ao meu trabalho. Tenho uma entrega de outro universo para você.

- De outro universo? Então, você é da Multiverse Express.

- Sim.

- Bender me falou algo sobre seus amigos… mas ele não mencionou nenhuma Anna Q.

- Fui contratada na semana passada. Sou mortal há apenas um mês.

Anna apertou os botões de um pequeno controle embutido em uma pulseira. Um robô deslizou para fora da nave que aterrissara no jardim da casa de Kirk.

- Olá – disse com voz grave.

Kirk o reconheceu imediatamente.

- O que aconteceu com Will Robinson, B9?

- Tenho uma mensagem gravada para o senhor. Gostaria de ouvi-la agora?

Anna já estava se afastando quando Kirk a chamou.

- Espere… Tem algum compromisso para hoje?

- Acho que a resposta apropriada para esse tipo de abordagem seria: “Não costumo sair com estranhos”.

Kirk sorriu.

- Não, não, você entendeu mal. Preciso enviar um presente, e se sua nave não partisse de imediato…

O rosto de Anna ficou ligeiramente vermelho – e Kirk a achou ainda mais atraente.

- Desculpe, eu… me enganei. Vou partir em quatro horas.

- Tempo suficiente. Em duas horas, deixarei no escritório da Multiverse Express um embrulho e o endereço para onde deve ser enviado. Gostaria que fizesse a entrega pessoalmente, como agora, e no dia e horário indicados. Você realizou um ótimo trabalho.

A nave esverdeada se elevou ao céu, deixando Kirk e B9 para trás, em meio às sombras das árvores no jardim.

- Mulheres bonitas de olhos verdes geralmente são perigo, perigo!, senhor. Se me permite a observação.

- Hum… Não, não permito. Agora, B9, vamos ouvir a mensagem de Will.

Cinco.

Capitão Kirk, muito tempo se passou desde nossa conversa a bordo da Júpiter 2. Embora a vida por aqui tenha permanecido a mesma, sem mudanças aparentes, creio que algo em mim se alterou.

Talvez tenha sido a percepção mais clara de que estou envelhecendo – ou, provavelmente, a constatação de que estou envelhecendo sem viver. Deixei de ter sonhos há muito tempo, e isso equivale a dizer que sou obsoleto em cada gesto ou pensamento.

Talvez haja tempo de mudar alguma coisa… Talvez, não. De qualquer forma, envio B9 para você, uma vez que ele não poderá me acompanhar em meu próximo destino. Tenho certeza de que meu amigo robô será de alguma valia.

Apenas mais uma coisa: quando você me ofereceu ajuda, dizendo que poderia me indicar o caminho de volta, eu recusei – e, naquele momento, tudo o que me veio à cabeça foi a imagem da Terra – a qual já não se encaixava em minha vida.

Depois, compreendi que casa não é bem um lugar, se é que me entende…

Sei que continuo perdido no espaço – mas, afinal, quem não está?

Quatro.

- Uma bela nave, Spock. Mesmo que ela fosse um desastre, ainda seria uma bela nave. Quase igual à minha Enterprise salvo algumas poucas diferenças – principalmente nas naceles e no casco primário. Sobre o tamanho, é claro, não são necessárias comparações: mil e oitocentos metros de comprimento praticamente deixam os cruzadores da classe Constitution no papel de naves auxiliares.

- A Ariadne é uma das maiores de nossa frota, Jim. E é, provavelmente, a melhor. Ela já demonstrou, por diversas vezes, que está longe de ser um “desastre”.

Benjamin Sisko se aproximou dos dois, detendo-se alguns segundos para contemplar sua nave pela janela da estação espacial.

- Bem, senhores… dentro de meia hora, estaremos partindo. Espero que sua esposa esteja satisfeita com as instalações, comodoro. Se houver algo que não tenha saído de seu agrado…

- Está tudo perfeito. E, por favor, pode me chamar de Jim. O título honorário concedido por sua Frota Estelar é apenas uma homenagem desnecessária.

Sisko anuiu.

- Claro, comod… hã… capit… Não, não vou me acostumar com “Jim”. Vamos dar um jeito nisso depois.

O capitão da Ariadne se retirou, não sem antes dar uma outra olhada pela janela.

- Ele me parece um bom capitão, Spock.

- Sirvo sob o comando de Sisko há oito anos. Posso assegurar que ele é extremamente capaz.

- Ótimo. Nossas duas primeiras missões envolvem certas questões… delicadas.

- São problemas que precisamos resolver antes de partir para as paralelas inexploradas. Nossa intervenção é necessária.

Kirk ficou calado durante um tempo. Enfim, fez a pergunta que estava em sua mente desde que lera as ordens enviadas à Ariadne:

- Não há uma contradição com a diretriz que impede qualquer interferência em outros universos?

Spock lançou um olhar sério para Kirk.

- Sim. Mas estes são tempos difíceis, Jim…

Três* .

- Minha dor não lhe diz respeito, Sybok. E não quero me livrar dela. Não me interessam seus dons ou sua filosofia. Sem minha dor, eu não seria mais eu mesmo. Preciso dela!

São as marcas que você carrega no peito – e que dizem quem você é. Se desse as costas às velhas feridas, nada mais faria sentido. Suas memórias seriam sombras sem vida, cidades fictícias erguidas sobre as ruínas de tudo o que é verdadeiro.

Você não é o tipo de homem que varre a verdade para debaixo do tapete. Você não é o tipo de homem que prefere esquecer…


Tarsus IV: onde foi um dos sobreviventes do massacre de Kodos; onde ficou à mercê da loucura e da sorte; onde milhares morreram à sua volta, sem que você nada pudesse fazer.

Foi quando aprendeu, para seu horror, que os homens são capazes de qualquer coisa para justificar a própria sobrevivência.


Quando as mulheres que fizeram parte de sua vida se foram:

Edith Keeler, que precisou morrer para que a Terra não se transformasse num inferno.

E Carol Marcus…

- Então… isso é um adeus? – ela fez a pergunta com lágrimas nos olhos. Àquela hora da tarde, a Golden Gate Bridge estava surpreendentemente vazia. Tudo o que se via eram os veículos aéreos em lento vôo e algumas embarcações ao longe, flutuando sobre as águas azuis do Pacífico.

Por um momento, você não conseguiu encontrar as palavras, como se elas se rebelassem contra sua disposição e não desejassem vir à luz – Eu… quero ver o que há lá fora. É o que me faz seguir em frente. O espaço é para mim o que suas pesquisas são para você…

As palavras falharam outra vez – mas não foi preciso dizer mais nada. Ela deu um beijo em seu rosto, então se afastou em silêncio.

- E quanto a David? E quanto a nosso filho? – você perguntou, não pela primeira vez. Era como se quisesse ainda se convencer de que estava tomando a decisão acertada. Carol se voltou, e suas palavras cruzaram aquele último espaço que vocês compartilhavam – aquele último resquício de ponte que logo viria a se desfazer:

- Eu o quero em meu mundo, Jim. É isso o que também me faz seguir em frente. Você pode dizer o mesmo?


Nos tempos da USS Farragut: quando foi incapaz de disparar seu phaser contra a criatura-nuvem de Tycho IV, permitindo que ela escapasse. Você era tenente, e jovem demais… Até aquele momento, acreditava que, ao simplesmente ocupar uma posição de comando, suas ações fluiriam com naturalidade, sem a sombra de dúvidas ou de receios. Não é assim que funciona, claro. Se alguém acha que já está preparado para tudo, acaba por perder um quesito fundamental para a ação e a sobrevivência: a adaptabilidade a uma nova situação.

Pouco depois, a criatura viria a matar metade da tripulação da Farragut – e você se culparia por anos, até descobrir, uma década mais tarde, que disparos de phaser eram inúteis contra a entidade.

Entretanto, a consciência de que seus esforços não teriam sido capazes de salvar o capitão Garrovick e todos os outros nunca foi o suficiente para que se perdoasse.

Você hesitou. Ficou paralisado, incapaz de lidar com seu medo. Centenas morreram, não foi sua culpa – mas poderia ter sido.


Talvez, em algum outro universo, um outro Kirk tenha compartilhado suas chagas, deixando à mostra medos, mágoas, inseguranças – ansioso por se colocar à prova, ou por se livrar do peso em suas costas.

Um outro Kirk.

Você jamais cederia à necessidade de uma purificação pretensamente libertadora. O “peso” é sua alma – sem a qual, você se tornaria uma casca vazia.

Um líder sem coração. Um capitão de nave estelar sem os limites que sua humanidade impõe.

O que poderia ser mais perigoso do que isso?

Dois.

- Ora, ora, quem diria… Jim Kirk em pessoa.

- Olá, Mudd.

- Então… veio visitar seu velho amigo no xilindró?

- Sim. Você o viu por aí?

Harry Mudd soltou uma gargalhada, balançando a barriga que, com os anos, havia se tornado mais proeminente.

- Continua o mesmo, capitão.

- E você também. Será que não vai aprender nunca, Harry?

- Já se viu como médico ou engenheiro? Não? Bom, eu nunca me vi como cidadão modelo.

- Você prefere se arriscar e passar algumas temporadas na prisão, de tempos em tempos.

- Oh, não é sacrifício algum, Kirk. Você já viu como são as prisões da maioria das Federações do multiverso, não? Hotéis três estrelas não possuem tanto conforto. Além do mais… tenho o dom de nunca permanecer nelas por muito tempo.

- Já está aqui há dois anos, Mudd.

- É… Parece que eles levam a segurança um pouco a sério demais por estas bandas.

- Talvez porque eles já tenham tido alguma experiência com outro Harry Mudd antes. Você está numa prisão de segurança máxima da Federação com mais tarimba em realidades alternativas.

Mudd se sentou em um banco, próximo ao lago que ocupava grande parte da propriedade da prisão.

- O que está fazendo aqui, Kirk? Você não veio simplesmente fazer uma visita de cortesia.

- Não. Sua pena acumulada ainda vai durar algum tempo, certo?

- Tenho mais três anos pela frente.

- Muito bem. Que tal sair daqui a dois dias?

- Dois dias? – Mudd arregalou os olhos, levantando-se do banco – E o que tenho de fazer?

- Você vai trabalhar sob minha supervisão. Estará sob minha responsabilidade durante os próximos seis anos. Depois, estará livre para ir aonde bem entender.

- “Trabalhar”? Quer dizer… trabalhar? Eu? Trabalhar?

Kirk manteve-se sério – mas era impossível não querer rir da expressão atônita no rosto de Mudd.

- Estou dando uma chance a você, velho. É pegar ou largar. Já tratei de todos os aspectos legais antes de termos essa conversa, então tudo agora depende apenas de sua resposta.

- E qual seria meu trabalho?

- A bordo da USS Ariadne. Barman.

- Barman? Eu não tenho nenhuma experiência em preparar bebidas!

- Claro que você teria alguma ajuda a princípio. Mas acredite: fazer bons drinques é bem mais fácil do que conviver com sua ex-mulher.

Mudd olhou rapidamente ao redor, como que para se certificar de que a megera (ou uma de suas cópias andróides) não estava por perto.

- Nem me fale. Mas por que está fazendo isso?

- Ora… Viemos da mesma paralela, pertencemos à espécie humana. Em termos de multiverso, é quase como falar que somos da mesma família. Além disso… como barman, você pode ter acesso a algumas informações que eu, de outra forma, não conseguiria obter.

- Claro… Sempre tentando ficar um passo à frente de todos.

Mudd voltou a se sentar no banco, pensativo.

- Três anos neste buraco, ouvindo as palestras intermináveis dos conselheiros… ou seis anos a bordo de uma grande nave, singrando os corredores do multiverso. Você não me deixa muitas opções, mano.

- Não sou seu “mano”.

- Você acabou de dizer que somos da mesma família.

- Eu disse que… – Kirk não conseguiu terminar sua frase. Mudd já o estava abraçando, radiante.

- Quando partimos, amigão?

Um.

- Você não sabia.

- A princípio, não. Mas bastou uma pesquisa rápida para entender tudo. Veja.

Anna se aproximou do computador holográfico e, com poucos comandos, abriu a tela com as seguintes informações:

Paralela: 1283.

Planeta: Terra.

Contexto: após a 4ª Guerra Mundial, já fatigada de tantos conflitos, a humanidade resolveu simplificar – e se tornou totalmente adepta da não-violência. Infelizmente, já era tarde demais, pois a população mundial de então se resumia a duas pessoas: Seu Joaquim, um senhor português de 99 anos, duro de morrer, e um policial norte-americano chamado John McClane, duro de matar. Como eles estavam a milhares de quilômetros um do outro e, mais relevante ainda, eram ambos do sexo masculino, a humanidade pacifista conheceu sua extinção em poucos anos.

Quase quatro séculos depois que John McClane, o último dos sobreviventes, deu som à derradeira expressão articulada por um ser humano dessa paralela – “Yippe-ki-yay, motherfucker” – a Terra foi colonizada pelos chabontzianos, uma raça oriunda do Sistema Kapong obcecada por restaurantes, fast-foods e lanchonetes. “Ingestão de líquidos e sólidos… não há nada mais sagrado” é o lema dos maníacos e gorduchos humanóides. Sua inteira civilização se estrutura em torno de quatro grupos sociais bem distintos: os cozinheiros, os garçons, os gerentes e, acima de todos, os lavadores de pratos – sem os quais nada se faz.

A Terra da paralela 1283 se tornou a maior praça de alimentação do multiverso. Há de tudo para todos os tipos de fregueses – com os mais variados gostos e contas bancárias. Você pode encontrar desde o lanche mais simples e corriqueiro (não deixe de visitar as barracas de Mbotola Bmoloba, junto às ruínas das ruínas do Coliseu, famosas pelo sanduíche de queijo frio) até os pratos mais sofisticados da cozinha de Chabontz (uma vez lá, e se estiver bem acompanhado, vá ao Jambourt de La Pumpa, próximo às ruínas do Cristo Redentor. É o restaurante mais romântico de todas as paralelas conhecidas. De fato, é tão romântico que 99,9 % dos casais que lá vão ingerir líquidos e sólidos conseguem ser felizes por mais de seis meses no casamento. Levando-se em conta que a média de duração da felicidade nos matrimônios não ultrapassa os dezessete minutos, não é de se espantar que o Jambourt de La Pumpa esteja sempre lotado).

- Ok – Kirk puxou Anna de volta para a cama e a abraçou, acariciando seus cabelos negros – Então, você sabia.

- A Enciclopédia do Multiverso pode ser esclarecedora. Você pediu que eu fizesse uma entrega na Terra 1283, no restaurante Jambourt de La Pumpa, exatamente uma semana depois de nos conhecermos. E especificou o horário: dez da noite, hora local. Sinceramente, foi uma manobra ousada – mas previsível.

- Ainda assim, demonstrou surpresa ao me ver.

- Eu não queria estragar o seu momento.

- E quando eu disse que o presente era seu…

- Você me fez percorrer o corredor interdimensional 1 – 1283 para entregar um presente para mim mesma. Quer dizer, eu já sabia que era para mim, mas…

- Você demonstrou irritação para não estragar meu momento.

- Exato.

Kirk riu.

- E depois você o abriu sem cerimônia.

- Claro. Era meu presente.

- Na verdade, você não o abriu. Você pulou sobre ele como Garfield faz com as lasanhas.

- Quem?

- Um gato.

- Bom, no Q continuum, ninguém liga muito para essas coisas. Mas desde que me tornei mortal, descobri que adoro presentes…

- Especialmente quando os recebe num jantar romântico à luz de velas?

Anna se inclinou e beijou os lábios de Kirk.

- Especialmente assim.

Zero.

Kirk abriu os olhos, lutando contra as trevas.

Nos últimos dez segundos, nuvens de pensamentos e recordações haviam atravessado sua mente ainda entorpecida, rápidas demais para deixar quaisquer vestígios.

Tentou se levantar, mas não conseguiu.

- Anna! – gritou, mas não houve qualquer resposta.

Aos poucos, foi capaz de enxergar o que estava ao seu redor. Escombros fumegantes e pilhas desordenadas de corpos imprimiram em sua alma um terror que há muito não sentia. O fogo se alastrava pelos consoles da ponte de comando, iluminando lacerados arcabouços de metal e as faces dos mortos, invariavelmente marcadas com um pavor súbito, congelado nas feições fantasmagóricas.

Finalmente, conseguiu erguer um braço. Para sua surpresa, então, percebeu que não precisou fazer qualquer esforço para tanto. Ao seu lado, destroços iniciaram um lento vôo no vazio: a nave estava perdendo seu sistema de gravidade.

Sem chance de esboçar qualquer resistência, ele se deixou levar pelo turbilhão – adejando sem rumo através do espesso nevoeiro de sangue e entulho. Em seu horror, ele imaginou que já estava morto, com o espírito desprendido da própria carne a assombrar a carcaça da espaçonave despedaçada.

- Espero que ainda esteja por aí, Kirk – a voz zombeteira e odiosa chegou por um dos canais de comunicação da Ariadne – Seria uma decepção se você já estivesse morto.

Kirk a reconheceu de pronto. E se houvesse força suficiente em seu peito para um único rugido, ele arrancaria das próprias entranhas o nome maldito:

- Khan…

CARLOS BITTENCOURT

* N. do A.: Agradecimento especial aos colegas de Fórum do site Trekbrasilis.