02

Seis meses antes da destruição da Ariadne:

O TABULEIRO DE NOSTRADAMUS

Aqui jaz a história de uma Terra transformada em cinzas.

Uma Terra antes prosaica, sem grandes atrativos, e que permaneceria na obscuridade do multiverso não fosse o insólito fenômeno que mergulhou sua história num oceano de sangue e terror. Pois nesta Terra, pútridos defuntos abandonaram suas casas tumulares nos subterrâneos, ganhando as ruas do mundo…

Sem qualquer atividade cerebral que sustentasse a lógica de seus movimentos, os mortos avançaram. À luz sangüínea do crepúsculo dos homens, carregando a cruz de sua fome vã, os mortos caçaram.

Suas presas, os vivos, começaram a habitar apenas os lugares mais escuros – sempre imóveis para não despertar qualquer atenção; sempre guardando em silêncio o medo dilacerante; sempre suplicando pelo fim rápido de sua agonia.

* *

Esta é também a história de um homem fora de seu tempo.

Um simples empregado da S-Mart (“a loja de departamentos para gente S-perta”) que permaneceria submerso na obscuridade do final do século XX não fossem os insólitos acontecimentos que o levaram aos limiares do mais puro pavor e da mais mórbida insanidade. Pois este homem presenciou os poderes de terríveis e nefastos espíritos…

Após se deparar com o Necronomicon Ex Mortis, o amaldiçoado Livro dos Mortos, o pobre diabo foi testemunha de uma série de eventos macabros – os quais resultaram na morte de vários inocentes. Como se a desgraça ainda fosse pequena, o infeliz, demonstrando inabilidade peculiar, foi incapaz de impedir o próprio exílio no seio brutal da Idade Média.

Ash (essa era sua alcunha, ligeira como as cinzas de um cigarro barato), transportado através de um vórtice temporal, deixou para trás o mundo previsível ao qual estava habituado e se tornou o herói involuntário eleito por uma multidão amedrontada e crédula.

Finda sua missão no remoto passado, a ele foi concedida uma miraculosa poção, preparada por um dos magos locais: graças a ela, Ash dormiria durante os séculos vindouros, sem envelhecer um ano sequer, até que seu próprio tempo enfim chegasse. O procedimento se revelou banal: uma gota do prodigioso elixir era medida exata para cem anos de sono. Não havia, portanto, como cometer um erro. Nem mesmo o mais inábil dos inábeis conseguiria falhar em tal empreitada…

- Não! Eu dormi demais! – Era a milionésima vez que Ash repetia isso. Nos últimos dias, enquanto perambulava sobre os restos mortais de Londres, ele já havia feito de quase tudo: cortara o próprio cabelo, fizera a barba, arrumara novas roupas, descolara um apartamento relativamente seguro no centro, visitara os supermercados para se munir de uma quantidade considerável de comida e bebida, conseguira mais armas no departamento esportivo da filial inglesa da S-Mart… Nada, entretanto, foi bastante para que ele colocasse fim ao moto-contínuo de seu pesar:

- Eu dormi demais! Eu dormi demais!

Ash deu mais uma risada histérica, então acertou com um tiro de seu Remington calibre 12 um morto que havia começado a andar em sua direção.

- Acordar no futuro já seria ruim o bastante! Acordar e descobrir que o mundo acabou e está infestado por mortos-vivos…

Outro disparo reboou nos céus fuliginosos de Londres. Mais um morto perdeu a cabeça – literalmente.

- … É tudo o que eu precisava! Desgraçados! Quem quer mais? Você!

- Guh? – Um morto franzino estava passando por ali, mas havia desistido de qualquer investida. Aquele vivo dava calafrios…

- É! Você! Venha cá!

- Guh…

- Você quer mais?

O morto fez que não com a cabeça.

- Eu aposto que quer. Não quer?

- Guh – O morto repetiu. Achou que sua resposta foi suficientemente clara.

- Saia daqui, seu bastardo! – Ash deu um disparo para o alto. Foi a deixa para que o morto começasse a correr.

- Ei, nunca vi um de vocês correndo.

- Guh! – gritou o morto, apavorado.

1

O capitão Benjamin Sisko não parecia nada satisfeito.

- Nossa jornada de seis anos tem início com a missão de aniquilar uma Terra. Quão prodigiosos nós somos… Quão poderosos nós nos tornamos.

- “Intervenção indispensável” foi a expressão utilizada pela Frota – Tasha Yar, chefe de segurança da Ariadne, era um dos cinco tripulantes na sala de reuniões naquele momento. A ironia em sua voz apontava que ela não estava nem um pouco convencida da legitimidade da missão a eles designada.

- A Frota está apenas obedecendo ao que foi decidido pelo Conselho da Federação, tenente. E houve uma série interminável de reuniões para que se chegasse a um consenso – o tom de Spock era professoral, o que lhe emprestava um inconveniente ar magnânimo – Embora a ética de nossa próxima missão possa ser questionada, acreditamos… acredito que o imperativo da sobrevivência de outras Terras está acima de quaisquer questões.

- Sr. Spock… – a oficial médico-chefe da nave mal podia conter sua raiva – Estamos prestes a eliminar um planeta inteiro porque, entre outras coisas, nossa definição do que é vida não é ampla o suficiente para englobar seus novos donos.

- A senhora evidentemente não deseja iniciar uma discussão filosófica aqui, dra. Animah. Precisamos nos ater aos fatos – e às suas possíveis conseqüências. Os mortos-vivos da Terra 666 representam uma ameaça e não há como refutar isso.

- Não me venha com as justificativas elaboradas pelo Conselho… Eu estava lá, sr. Spock. Sei que a questão da segurança pesou muito menos do que o orgulho de nossos líderes.

- “Orgulho”? – o vulcano repetiu a palavra de forma vaga, como se procurasse para ela um novo significado, fora de qualquer contexto emocional.

- Vamos nos ater aos fatos e às suas conseqüências. Fato: é intolerável para muitas pessoas aceitar que algumas Terras não estão destinadas ao sucesso – e “sucesso”, no caso, significa o domínio irrestrito do homo sapiens sapiens. Conseqüência: todas as Terras que não se encaixarem no padrão pré-definido serão varridas da existência.

- Acredito que a senhora esteja deveras acostumada a enxergar escuridão – mesmo onde ela não exista. Nós não queremos estabelecer um controle de qualidade para quaisquer planetas do multiverso. O que precisamos é impedir que os mortos-vivos da Terra 666 sejam usados como armas de guerra – por pessoas inescrupulosas de nossa paralela ou de qualquer outra que, porventura, domine a tecnologia de deslocamento entre universos. Imagine, dra. Animah, cinco mil mortos-vivos enviados para o coração de uma metrópole da Terra Um… cinco mil mortos-vivos com inibidores de teletransporte em seus corpos, espalhando o horror e o caos em nossos lares. Nós não teríamos como nos defender antes que cem mil pessoas estivessem infectadas. E isso seria apenas uma forma de nos desestabilizar em curto espaço de tempo, porque há indícios de que bastaria a simples presença de um morto-vivo para contaminar todo o planeta.

- Imaginação fértil é tudo o que vocês precisam para aniquilar um povo? O senhor parte de uma premissa hipotética para justificar seus fins.

- Não se trata de um “povo”, dra. Animah. E a senhora já deveria saber que, no multiverso, hipóteses e possibilidades, por mais incertas, possuem um peso bastante grande.

A mulher já estava começando a replicar quando Sisko a interrompeu com um gesto.

- Precisamos nos lembrar de que não estamos aqui fomentando qualquer tentativa de rebelião. Nossas ordens são nossas ordens, e iremos acatá-las – a menos que algum dado novo surja nas próximas horas.

Ajeitando os cabelos prateados e respirando fundo, Animah restabeleceu aos poucos o próprio equilíbrio. Nos últimos oito anos, seu relacionamento com Spock havia se desgastado bastante – seja porque quase todos os seus pontos de vista eram diametralmente opostos aos dele, seja porque ela nunca era capaz de realmente fazer valer suas opiniões. Sentia-se constantemente sobrepujada, impotente – mas sua relação com o oficial de ciências da Ariadne era apenas o reflexo de uma derrota maior. Desde que, muito jovem, deixara para trás sua paralela – onde o Incal se mostrara incapaz de triunfar sobre a Grande Escuridão –, Animah jamais conseguira ficar em paz consigo mesma. De alguma forma, ela sentia que havia uma constante terrível no multiverso, contra a qual nada poderia ser feito: a vida estava sempre levando uma surra de qualquer racionalização – mesmo a mais simplória ou absurda.

- Eu queria, mesmo assim – Sisko continuou – ter certeza de que não estava sozinho em meu desconforto.

- Também não me sinto confortável – Spock estava visivelmente irritado – Mas é algo que precisamos fazer… e o senhor compreende isso, capitão.

- Por que nós?

Todos se voltaram para Kirk, que havia ficado em silêncio até aquele momento.

- Andei examinando os porões da história de sua Federação nos últimos dois anos. Foi intrigante perceber que há uma tendência bastante curiosa entre vocês em deixar o serviço sujo para as máquinas. O discurso popular é que os robôs lidam com problemas para os quais os seres humanos não possuem respostas adequadas – seja no aspecto físico ou psicológico. Mas o que não aparece em nenhum discurso é o fato de que, às vezes, vocês preferem não sujar as mãos. Em outras palavras: sua Federação não vacila em tomar decisões controversas, mas não quer se haver com o que precisa ser feito depois. Enviar as máquinas se tornou, então, uma saída fácil… e bastante freqüente. Elas não se sentem constrangidas com nenhuma questão ética – ao menos, não como nós. Em essência, são meras ferramentas.

Kirk parou de falar durante alguns segundos, esperando que Sisko ou Spock tivessem algo a dizer. Como os dois permaneceram calados, continuou:

- Existem dez naves em sua Frota operadas exclusivamente por andróides e robôs, o que parece indicar pelo menos duas coisas: um, sua diretriz de não-intervenção em outros universos é pura ficção; dois, há muito trabalho sórdido sendo feito por vocês e suas ferramentas.

- A diretriz de não-intervenção é uma das pedras angulares de nossa Federação, comodoro.

- Capitão, o simples fato de que há milhares… milhões de exilados de outros universos em sua chamada Terra Um significa alguma coisa. E é óbvio que não estou reprovando isso – Kirk olhou para Animah e sorriu.

- Não há interferência no fato de resgatarmos, por exemplo, os últimos sobreviventes de uma Terra condenada. É uma questão humanitária.

- Você tem razão. Mas há interferência, capitão, quando vocês resolvem substituir um Leonardo da Vinci natimorto por um clone de uma versão saudável.

Sisko ficou pasmo.

- Não sei de onde conseguiu essa informação, mas posso garantir que…

- Não foi de sua Enciclopédia do Multiverso, com certeza. As fontes mais fidedignas dificilmente escrevem os livros de história.

Um nome surgiu na mente do capitão da Ariadne de imediato. Era óbvio:

- Jean-Luc Picard?

Kirk assentiu:

- Também estive com ele.

- O Picard da Terra Um não passa de um bêbado.

- Na maior parte do tempo, sim. Quando está sóbrio, no entanto, ele tem algumas coisas interessantes a dizer. Mas vamos voltar à minha pergunta inicial, capitão: por que nós? Por tradição, uma nave de máquinas deveria ter sido enviada para realizar esta missão.

- Comodoro…

- A não ser – Kirk prosseguiu – que todas já estejam ocupadas em missões semelhantes à nossa.

Na sala de reuniões, não se ouviu mais nada até que Kirk deixou no ar sua última pergunta:

- Quantas operações simultâneas de extermínio estão em curso, capitão Sisko?

2

- Bub… eu. Bub… você?

- Não, chefia. Já disse: eu, Ash; você, Bub.

Ambos já estavam nisso há quase dez minutos. Ash se sentou sobre um monte de escombros próximo ao Big Ben e tirou dois cigarros do maço preso ao seu cinto. Não podia perder aquela oportunidade: Bub era o primeiro morto-vivo com quem conseguira falar.

- Fuma, Bub?

- Bub… fuma.

- É… achei que sim. Pelo menos, ninguém vai dizer que fumar pode te matar, não é?

- Bub… fuma.

- Ok, aqui vai. Agora, vou usar este isqueiro para acender seu cigarro. Você vai bancar o bobalhão por causa do foguinho ou vai ficar calmo?

- Bub… não bobalhão.

- Ok.

Ash acendeu o próprio cigarro e depois o de seu corpulento colega. O morto-vivo aspirou a primeira fumaça e esboçou um sorriso.

- Bub fuma.

- É isso aí, Bub. Agora, vamos conversar um pouco… Por que não tentou me devorar? Quer dizer, não que eu esteja reclamando, mas você já é o sétimo morto em uma semana que não demonstrou nenhum interesse em mim como petisco. Há algo de novo acontecendo ou vocês simplesmente enjoaram de carne?

Bub ficou olhando para Ash durante um minuto inteiro. Depois, tragou a fumaça do cigarro e sorriu novamente.

- Bub? Você ouviu o que eu disse?

- Bub… achar… que estamos ev… evo… evu…

- Evoluindo?

- Isso.

- Como assim?

- Nós… não precisar… comer. Nós… tudo morto. Então, fome… fome nossa ser apenas… ins… intis… inst…

- Instinto?

- Isso.

- Incrível! Alguns de vocês estão se dando conta de que não precisam mais sair por aí atrás dos vivos porque não estão realmente com fome.

- Na verdade, primeiro… começou a faltar… vivos. Antes… a gente não precisava pensar. Só seguia instinto. Depois… vivos sumir… e a gente viu… que fome também sumia.

Súbito, Ash percebeu que um outro morto-vivo, não muito distante de onde eles se encontravam, se moveu para seu lado. Estava em avançado estágio de decomposição, mas conseguia arrastar lentamente o corpo macerado.

- Parece que o garoto-gangrena ali ainda não viu a luz – o Remington a tiracolo foi sacado com rapidez – Talvez isto ensine a ele alguma coisa sobre evolução.

- Não… não fazer nada – Bub foi até o morto-vivo, o agarrou pelo pescoço e disse algo que Ash não compreendeu – era como ouvir uma língua antiga, repleta de sons bizarros e guturais. Bub soltou o cadáver, que deu meia-volta e começou a se arrastar para outros cantos.

- Vocês conseguem se comunicar, então. Bub, meu velho, parece que estamos às portas de um novo mundo… Muito feio e cheirando a açougue de décima categoria, mas é um novo mundo.

- Alguns de nós… pensar. Então, alguns de nós… ensina outros a pensar.

- E você é inglês?

- Bub… dos Estados Unidos.

- Um morto-vivo americano em Londres! Também sou de lá, parceiro.

Sorrindo, Ash se levantou e deu um tapa amigável nas costas de Bub – arrependendo-se logo em seguida, porque alguma coisa no interior do corpo putrefato pareceu sair do lugar.

- Foi mal aí, chefia.

- Sem… problema. Tudo desgasta. Bub… também. Depois… quando todas as coisas de Bub… desgastadas… quando não conseguir mais… se mover… ou pensar… talvez Bub descanse.

- Certo… – Ash voltou a se sentar. Entendia muito bem o que Bub estava dizendo. Sentia-se, ele mesmo, terrivelmente cansado, preso a um torpor que às vezes dava asas funestas à própria imaginação: como seria se simplesmente fechasse os olhos e não se movesse mais? E se ele apenas esperasse que alguns dos mortos chegassem até seu corpo e…

A imagem não era nada agradável. Por isso, mantinha sempre os olhos abertos, estava sempre se movendo. Essa era sua fatigante rotina nos dezoito meses que já haviam se passado desde que despertara.

- O que está fazendo na Inglaterra, Bub?

- Bub estava… em base militar americana. Ensinaram coisas a Bub. Cientista bom deu nome… a Bub. Depois, outros mortos invadiram base e acabaram… com tudo. Muito tempo passou… Coisas aconteceram. Então, um dia Bub entrou em barco… com vivos dentro. Bub sozinho e escondido… Vivos estavam fugindo da América. Vivos vieram para cá.

- O que houve?

- Vivos chegaram… Achavam que aqui haveria… paz. Foram recebidos por… milhares de mortos. Todos devorados. Bub saiu do barco… andou por aí… começou a ensinar.

Ash assobiou.

- Você passou por um bocado de aventuras… como eu. Talvez – então, a idéia passou por sua cabeça como um pássaro veloz. Ergueu-se, entusiasmado – E se eu pudesse ensinar alguma coisa também?

Bub olhou para Ash mais atentamente. De seu ponto de vista, ele era um pouco estabanado demais para se passar por professor.

- O que você… tem para ensinar?

Ash ficou pensando durante algum tempo. Começou a se sentir ansioso.

- Quem sabe, se eu… Ei, posso mostrar aos mortos já convertidos – os que substituíram o consumo de carne por consumo de nada – o valor do dinheiro!

- Dinheiro…? – O significado da palavra era algo perdido para Bub. O som, entretanto, trazia alguma nostalgia, algum mal-estar…

- Dinheiro! Vamos precisar de algo para usar como moeda. E precisamos descobrir o que os mortos-vivos desejam. Do que vocês gostam, Bub?

- Do que… gostamos?

- Sim. Vocês precisam desejar algo. Com base nisso, pensaremos em bens de consumo e…

- Nós gostamos de… andar.

- Andar?

- E de olhar coisas.

- Ok. O que mais?

Bub coçou o queixo, meditativo. Um pensamento deslizou pelas águas pardacentas e enlameadas de sua mente como uma pequena e escorregadia enguia, sempre escapando às suas tentativas de capturá-lo. Quando, enfim, agarrou-o, viu que a resposta estava em suas mãos:

- Bub fuma.

- Mais um cigarro?

- Não, não. Bub gosta… fumar.

Os olhos de Ash se iluminaram.

- É isso… Cigarros! A indústria perfeita para nós! O carro-chefe de nossa admirável nova ordem mundial!

O morto-vivo se aproximou, estendendo a mão macilenta, e os dois selaram o futuro de seu assombroso e estranho planeta com um vigoroso cumprimento.

Mais alguma coisa dentro do corpo de Bub se deslocou, acabando por rebentar uma bolha de bílis na altura de seu estômago.

- Foi mal aí, chefia.

3

- Guerra? – Tasha Yar mal podia acreditar no que acabara de ouvir – E quando iriam nos avisar que estamos na iminência de uma?

- Não antes da hora – disse Spock – Nem temos certeza de que haverá uma guerra, tenente. Por isso, o Conselho da Federação achou por bem que um número bastante reduzido de militares soubesse da ameaça. Na Ariadne, apenas eu e o capitão Sisko fomos informados. Agora, vocês três também sabem.

- Então… vocês não se valeram apenas de hipóteses vagas. Há uma possibilidade concreta de que os mortos-vivos sejam usados como armas – A voz de Animah era baixa, quase um sussurro para si mesma.

- Correto. E, pelo retrospecto das campanhas do Ultradomínio, temos certeza de que eles o farão – se houver oportunidade.

- No momento oportuno, tentarei explicar melhor tudo isso – Sisko olhou para Kirk, cofiando a barba – Comodoro, sinto que não tenha sido informado antes dos detalhes que cercam nossa missão. De qualquer forma, acho que convoquei esta reunião na esperança de que alguém fosse capaz de descobrir nosso pequeno segredo. Fico feliz que tenha sido o senhor a fazê-lo.

- Capitão Sisko… – Kirk estava rígido, sem movimentar quaisquer outros músculos que não os da face – Você ainda não me respondeu.

- O quê?

- Quantas operações de extermínio estão em curso neste exato momento?

- Informação sigilosa, Jim – Spock se apressou a dizer.

Kirk não tirou os olhos de Sisko.

- Capitão, eu não estou nesta nave a passeio. Sei que Spock não me chamou apenas porque foi amigo de outro James Kirk. Havia algo mais, e agora estou começando a entender melhor as coisas. Na possibilidade de uma grave crise, vocês não poderiam perder a chance de ter ao seu lado um veterano experiente – então, tudo foi arranjado para que eu estivesse a bordo de uma grande nave de sua Frota. Estou certo?

Sisko olhou para Spock.

- Ele é bom.

- É claro que sim. Agora, se vocês querem realmente minha ajuda no futuro, preciso saber de tudo o que está acontecendo.

- Muito bem… Ao todo, são novecentas e vinte e sete missões de limpeza e/ou de apreensão.

- Minha nossa… – Animah por pouco não se levantou da mesa – Vocês as chamam de “missões de limpeza”, Ben?

Sisko fitou tristemente a mulher, sentindo-se tão mal quanto ela. Como as coisas haviam chegado àquele ponto? Quando é que eles haviam começado a abandonar a própria alma em troca de segurança?

- A senhora está certa. Peço desculpas pela expressão utilizada. São novecentas e vinte e sete missões, das quais cento e quinze envolvem aniquilamento em escala global. Todas as outras oitocentas e doze abrangem destruição parcial ou apreensão de armas letais e de novas tecnologias.

- Cento e quinze Terras?

- Não, comodoro. Apenas… – Sisko se deteve, arrependido – Acho que o termo “apenas” não se aplica aqui. São treze Terras.

- Uma das quais iremos destruir em alguns minutos – Tasha Yar murmurou, horrorizada.

- A expressão é cruel, mas exata: vocês estão mesmo realizando uma limpeza.

- Precisamos nos defender, comodoro. Milhares de paralelas adjacentes à paralela um foram esmiuçadas com cuidado nos últimos três anos, desde que descobrimos a ameaça. Foi bem complicado obter uma lista definitiva… E agora, chegou o tempo de agir.

- Mas por que a urgência? Por que a simultaneidade das operações?

- Bom… – por instantes, Sisko pareceu perdido, então voltou a encarar Kirk – As eleições para Presidente da Federação estão próximas… Talvez o próximo eleito não compartilhe da mesma visão que o atual. Um veto bastaria para que todas as decisões do Conselho fossem totalmente descartadas.

Kirk sorriu com ironia e nada disse.

- Qual é exatamente a estratégia empregada pelo Ultradomínio, capitão? – perguntou Tasha.

- Eles conquistam as paralelas próximas do universo que de fato interessa – invariavelmente, aquele que detém as potências com maiores possibilidades de oferecer resistência. Depois, investem contra as forças dos inimigos mais capazes utilizando exclusivamente as armas e tecnologias recém-adquiridas.

“É uma forma de poupar os próprios recursos e de ocultar seu real poder. O Ultradomínio só lança mão de sua verdadeira máquina de guerra caso as primeiras ondas de ataque não resultem no enfraquecimento categórico de seus oponentes”.

- Então – Tasha Yar começou a perceber melhor a magnitude do problema – mesmo tomando todos os cuidados para nossa defesa, mesmo agregando novas tecnologias…

- Talvez não tenhamos força necessária para resistir – completou Sisko.

- No entanto, – disse Spock – por pura sorte, o Ultradomínio parece ainda ignorar nossa existência. Cedo ou tarde, é claro, eles nos acharão…

- Como sabemos tanto sobre eles, sr. Spock? É difícil acreditar que, enquanto obtivemos tantas informações úteis, conseguimos nos manter invisíveis aos olhos de um poder tão vasto.

- Os detalhes da façanha estão nos arquivos confidenciais da Frota, tenente. Irei providenciar para que vocês três tenham acesso.

- E quanto à missão de seis anos? – Kirk quis saber – Apenas uma história de fachada para o público?

- Não, Jim. Após esta e nossa próxima operação, daremos prosseguimento ao que mais importa em tempos de paz – a exploração do desconhecido. Mas estaremos sempre de prontidão: a Ariadne pode retornar a qualquer momento à paralela um… caso a paz deixe de ser uma realidade.

- Ponte para capitão Sisko – a voz grave do engenheiro-chefe ressoou na sala de reuniões através do intercom.

- Chegamos, sr. Anderson?

- Terra 666, senhor.

- A caminho.

Eles se levantaram ao mesmo tempo. Porém, ao invés de se encaminharem imediatamente para a porta, permaneceram imóveis e silenciosos, incapazes de se mirarem nos olhos.

Apesar da ameaça de uma guerra sem precedentes…

Apesar de toda a degradação do planeta à frente deles…

Ainda não parecia certo.

Ainda não parecia justo.

- Já se questionou se os deuses eram astronautas. Agora, talvez seja hora de perguntar se os astronautas são deuses.

Na companhia das palavras pronunciadas por Animah, os cinco finalmente se dirigiram para a ponte de comando. Em seus uniformes negros e à luz mortiça dos corredores da nave, assemelhavam-se agora a carrascos – os passos lentos, quase cerimoniais, repercutindo na noite que os rodeava.

4

- Veja a fumacinha… Não parece bom? Hummm… Parece muito bom.

- Guh.

- Ela fica melhor ainda dentro do seu pulmão. Veja que delícia. Hummm…

- Guh.

- Você coloca o cigarro na boca… assim. Agora, você aspira… assim.

- Guh…

- Não, não. Isso aí é o seu nariz. Coloque o cigarro na boca.

- Guh?

- Não, na orelha também não pode.

- Guh.

- Bom garoto! É isso aí! Agora… não, não é para soprar.

- Guh…?

- Não, também não é de comer!

5

- Travar míssil de dobra no alvo, tenente.

Tasha Yar executou com rapidez os comandos necessários no console do posto tático.

- Míssil pronto, senhor.

- Disparar ao meu comando.

Fogo – ele diria após fornecer ao computador o código de lançamento, e um mundo deixaria de existir. Não, não apenas um mundo: uma parte considerável de todo o sistema solar.

Apesar de anos debruçados sobre a 666 (assim identificada não por ser a 666ª linha alternativa descoberta pela Federação da paralela um, mas por sua própria natureza medonha e por seu impacto no imaginário popular), os mais brilhantes cientistas de diversas paralelas jamais descobriram as causas do tétrico evento naquela Terra. Poderia ser algo presente nos raios cósmicos, ou algo oriundo exclusivamente da atmosfera… Poderia ser alguma coisa no solo, talvez na água… Sugeriu-se mesmo o sobrenatural.

Presos ao campo das hipóteses mais vagas, incapazes de alcançarem quaisquer conclusões, os cientistas se consideraram, por fim, derrotados. Sem uma explicação que não se revelasse inconsistente, houve até quem apontasse, num derradeiro esforço de obter esclarecimento, a possibilidade do fator ficção: a Terra 666 seria fruto da imaginação de uma pessoa de outro universo. Uma das mais respeitadas autoridades da Terra Um, no entanto, descartou a idéia por considerá-la um total disparate. George Romero, o cientista em questão, achou impossível que alguém pudesse sequer sonhar com uma realidade como aquela com a qual estavam lidando. “Há limites – mesmo para os pesadelos” – ele teria dito.

Assim, para evitar que o Ultradomínio tivesse a oportunidade de reproduzir o fenômeno da 666, a Federação optou por apagar da existência aquela Terra e quase tudo ao seu redor. No interior de um dos tubos lançadores de torpedos quânticos da Ariadne, o míssil de dobra com a carga letal de flexo-trilithium estava agora prestes a seguir sua rota rumo ao Sol. Bastava uma palavra para que a estrela fosse instantaneamente catapultada à sua fase de Gigante Vermelha.

Bastava a sua palavra.

O capitão respirou fundo e arrumou o casaco de seu uniforme junto ao corpo.

Uma outra vez, ele se perguntou como havia chegado àquele ponto – onde precisaria desempenhar o abominável papel de exterminador. Infelizmente, era seu dever, seu trabalho – mas também era algo mais.

Pensou no velho restaurante de seu pai, em New Orleans. O piano a um canto, como um velho amigo de tempos passados, trazendo consigo as lembranças e as músicas de dias alegres. O ir e vir de pessoas simples, felizes apenas por estarem ali – onde o tempo era medido não pelos ponteiros dos relógios, mas pelos aromas no ar.

Como sorrir era fácil naqueles dias…

Quando a morte levou Joseph Sisko, o lugar precisou fechar as portas. Para Ben, que mal havia entrado na Academia da Frota, foi um golpe duro de ser assimilado – não somente pelas perdas em si, mas pelo inusitado fato de que, aparentemente, sentia mais falta do restaurante do que de seu pai.

Apenas muito mais tarde, compreendeu que ambos eram um só. Sem Joseph Sisko, os ponteiros dos relógios retomaram o controle do tempo; sem o espírito que dava vida àquele pequeno mundo, as pessoas perderam a alegria e acabaram desaparecendo das mesas. O piano se tornou um mero móvel, abandonado num silêncio de penumbra e de teias.

A música havia se perdido.

Por algum tempo, a carreira na Frota foi a única coisa a manter Benjamin Sisko são. O uniforme se tornou sua vida e sua glória, quase um fim em si mesmo – até que ela surgiu, deixando tudo sob uma luz diferente.

Jennifer – seus olhos iluminados, o sorriso sempre brincando nos lábios… Ele poderia repetir o nome dela o dia inteiro sem se cansar, apenas pelo prazer de ouvi-lo.

Jennifer…

Ela era a música em seu coração, era a doce brisa que o fazia respirar com mais vontade a cada manhã. No dia em que a pediu em casamento, Sisko sabia que eles seriam felizes para sempre. Não importavam as incertezas do amanhã – ele sentia que tudo acabaria bem para eles.

Então, os borgs destruíram o que ele tinha como certo. Jennifer foi assimilada pela coletividade durante a batalha de Wolf 359, há quase dez anos, e Sisko nunca mais a viu. Restaram lembranças, dolorosos fragmentos do passado dispersos em caixas empoeiradas.

A música, mais uma vez, se perdeu.

Sisko fitou o planeta pela tela da ponte – um mundo sem qualquer esperança. Entretanto, não era a Terra que enxergava agora. Ali estava o seu reflexo – e tal qual o abismo, a escuridão também olhou para dentro do homem.

Sempre pelas manhãs, acordava sem conseguir respirar, o coração aos pulos. Apercebia-se, então, menos humano – com a noção clara de que sua alma partira com tudo o que amara – com tudo o que perdera. Havia se tornado um espectro, alguém que não mais vivia há uma década… Quando vestia o uniforme da Frota, é claro, as trevas se dissipavam e ele se recompunha – ao menos, até que a próxima noite viesse.

Não, não era apenas mais um trabalho.

Ao receber aquela missão, alguma coisa em Sisko rosnara. Ele não era um soldado esculpido para os tempos de guerra e para a destruição; sua alma era a de um desbravador, a de um homem de paz. No entanto, ali estava exatamente o que ele em segredo desejava: a catarse, a chance de purgar o universo, a si mesmo, arrancando de sua alma toda a dor…

Ao receber aquela missão, ele cerrara os punhos – como se tentasse conter nas próprias mãos o ímpeto selvagem, o ardor da vingança.

Ele cerrou os punhos agora.

A morte pagaria caro por esta piada: permitir que cadáveres se tornassem os peões bestiais de sua vontade doentia…

E a morte pagaria caro por toda a dor em seu peito.

Era a sua palavra contra o mundo.

E pelo fogo, todo o mal seria transformado em cinzas…

E se precisasse destruir todas as estrelas para alcançar a paz, ele o faria…

De repente, como se despertasse de um sonho terrível, Sisko prestou atenção aos próprios pensamentos. Escondeu o rosto nas mãos, envergonhado: naquelas inóspitas regiões de sombras, deuses e monstros eram as duas faces de uma mesma moeda.

- Você naturalmente pode requisitar que uma outra nave seja designada para a 666. Seria bastante compreensível – e não constaria de sua ficha de serviço.

- Eu farei o trabalho, almirante.

Um Flash Gordon envelhecido – mas ainda bastante robusto – voltou a se sentar. Em seu escritório, estavam apenas ele e Sisko.

- Pode me dizer uma coisa, Ben?

- Pois não, senhor.

- Eu o conheço há muitos anos – e sei que nada o incomoda mais do que os ônus de uma guerra… Por que aceitou tão rapidamente a missão? Ainda que não seja seu planeta, ainda é uma Terra.

Sisko sequer piscou.

- Com as naves de IA’s já ocupadas com a destruição de outros planetas, alguém precisa assumir a 666, senhor. A Ariadne é tão boa quanto qualquer outra nave. Quanto ao que me incomoda ou não, minhas obrigações sempre estão em primeiro lugar.

Flash Gordon passou a mão na cicatriz em seu rosto. Seus olhos se estreitaram, como se estivessem se esforçando para enxergar alguma coisa além das palavras.

- Todos os dias, eu me lembro do momento em que ganhei esta cicatriz, capitão. Todos os dias, eu me lembro das mãos de Ming em meu rosto, arranhando, cortando… enquanto eu o estrangulava.

- Ele teve o que merecia, senhor.

- Sim… o maldito teve o que merecia. Mas não me senti melhor depois, Ben. Muito pelo contrário. Não o matei em legítima defesa… Foi apenas vingança.

- Se ele continuasse vivo…

- Sim, sim. Se ele continuasse vivo, a ameaça persistiria. Mas não foi isso o que me motivou naquele momento.

- Entendo.

- Você está atrás de algum tipo de vingança e reparação, Ben, ou age apenas pensando na defesa de nosso universo?

Por essa, Sisko não esperava. Estava tão absorto que não havia percebido a armadilha preparada por Gordon. Se ele não fosse um almirante – o comandante em chefe da Frota – e, evidentemente, se não tivesse quase dois metros de altura, Ben o nocautearia.

- Com todo respeito, senhor… Não acredito que a missão deixará cicatrizes em mim.

Flash Gordon se levantou calmamente e foi até onde Sisko estava. Encarou-o por alguns segundos.

- Mas você já as tem, capitão. Você já as tem.


- Não entendo uma coisa – disse Tasha, aproveitando-se do silêncio prolongado de Sisko – Não poderíamos resgatar os que ainda estão vivos?

- Eles estão contaminados – respondeu Animah. Ela estava em pé, bem próxima ao posto tático, de modo que apenas a tenente ouviu sua voz descolorida – O que quer que tenha gerado o fenômeno já está atuando em seus organismos. Quando morrerem, – seja de que causa for – todos voltarão a andar. E há também a possibilidade de que nos infectem ao menor contato… Não há nada que possamos fazer a respeito.

- Os filtros do teletransporte não poderiam ajudar? Se eles são capazes de evitar a entrada de microrganismos estranhos na nave…

- E iríamos filtrar o quê, Tasha? Não temos a mínima idéia do que seja tudo isso.

- Capitão… – Spock fez girar sua cadeira no posto de ciências, de modo que pudesse enxergar Sisko – A última missão na paralela 666, há vinte e quatro meses, registrou quatro bilhões de mortos-vivos e quarenta e cinco mil sobreviventes. Agora, há três bilhões e meio de mortos-vivos e apenas dois mil sobreviventes.

Sentado em sua cadeira, Sisko fechou os olhos por um instante.

- Como estávamos esperando. Há menos mortos porque a decomposição completa já alcançou alguns e também porque eles simplesmente não podem se reproduzir. Em relação ao número de vivos atual… creio que não precisamos dizer nada.

- Sim… E também há algo curioso. Na última vez em que a Terra 666 foi sondada, não havia nenhum sobrevivente em toda Grã Bretanha. Agora, há um.

- Um?

- Apenas um. Em Londres.

- Estranho… – Sisko olhou para Animah, que já estava dando uma olhada nos terminais do posto de Spock – Provavelmente, ele deixou o continente para tentar a sorte na Inglaterra.

- É possível. Mas há algo ainda mais curioso acontecendo neste exato momento. Ele está cercado por mortos-vivos… e eles não o estão atacando.

- Bom… – Sisko estava perplexo – Para isso, não encontro uma justificativa razoável.

- Nosso sobrevivente pode ter descoberto uma forma de conviver com os mortos. Talvez, ele seja algum tipo de… messias.

- Dra. Animah… – Spock ergueu uma sobrancelha – A existência de um líder requer um substrato. Requer…

- Um meio social – completou Animah. Havia um novo brilho em seus olhos azuis – Requer um povo.

Ben Sisko se ergueu e andou lentamente pela ampla ponte de comando. Passou por um Kirk taciturno e atento. Passou por Thomas Anderson, o novo engenheiro-chefe da Ariadne. Deteve-se na frente de Tasha Yar.

- Estamos descendo. Quero nosso principal especialista em antropologia para o grupo avançado – dr. Cornelius, se não me engano. Encontramo-nos na sala de teletransporte oito em quinze minutos, tenente – virou-se para a dra. Animah – A senhora vem?

Antes de sair da ponte, olhou uma vez mais para a Terra. Por um segundo, achou ter visto um rastro fugidio e dourado na atmosfera do planeta. Um meteoro, por certo.

- Sr. Spock, o comando é seu – disse, já entrando no turboelevador. Animah o acompanhou.

6

- Um cigarro vale dois gravetos.

- Guh?

- Isso… um, dois. Agora, você pega seu cigarro e me dá para que eu possa acendê-lo. Mas… opa! O Foguinho custa três gravetos! São cinco gravetos ao todo, chefia.

- Guh…

- Está sem? Bom, então você precisa achar os tais gravetos. Trabalho duro, meu caro, e você terá o foguinho mágico!

- Guh.

- E lembre-se: gravetos de verdade. Lenha. Não valem ossos ou outra nojeira do tipo.

Ash olhou para a grande fábrica logo atrás de seu quiosque. Fora muita sorte achar nas imediações de Londres aquela monstruosidade clandestina movida a tabaco. Graças ao monumental estoque encontrado, eles teriam cigarros por muitos e muitos anos, sem se preocupar com detalhes – plantação, mão-de-obra, transporte de mercadoria, etc, etc…

Ash detestava qualquer et cetera.

O importante era: os mortos-vivos estavam felizes porque tinham um motivo para existir; e Ash estava feliz porque… bom, porque ele estava ficando cheio de gravetos, e gravetos significavam status em sua nova ordem mundial. Quando passeava pelas ruas de Londres (invariavelmente às margens do Tâmisa, onde o ar era um pouco menos carregado de odores desagradáveis), sempre havia um morto-vivo que apontava para ele e dizia, cheio de veneração:

- Ghu…

Isso valia ou não valia a pena? Claro, dava trabalho acender os cigarros de todo mundo (os mortos-vivos, inclusive Bub, simplesmente não conseguiam se acertar com isqueiros e fósforos… Fogueiras, por menores que fossem, nem pensar: eles ateavam fogo em si mesmos num piscar de olhos), mas nada que fosse realmente impossível.

- Ghu?

- Você não é muito novo para fumar, garotinho?

- Ghu…

- Eu sei, seu pulmão e seus pais não se importam mais. Ok, trouxe os gravetos, bad boy?

- Ghu!

- Sete? Saem dois cigarros e um foguinho mágico para o micropunk.

- Ghu?

- Não, não dá para acender o outro. Mas deixe eu te ensinar uma coisa… Talvez seja hora de vocês começarem a pensar em como economizar um pouco. Primeiro, você fuma um… depois, você acende o outro com o um… E pimba! Três gravetos poupados! Entendeu? Não? Certo… – Ash olhou desanimado para a crescente pilha de isqueiros usados junto ao balcão – Você volta com três gravetos e te dou mais um foguinho mágico.

- Ghu!

- Agora, filho, deixe a fila andar.

O pequeno se arrastou para um lado, feliz com sua nova aquisição. Milhares de mortos-vivos carregados de gravetos deram um passo à frente.

Ao lado de Ash, Bub ajeitou os óculos escuros e se espreguiçou, sentado em sua colorida cadeira de praia. Estava se divertindo muito mais do que imaginara…

Às vezes, precisava colocar algum morto-vivo nos eixos, impedindo que Ash se transformasse no prato do dia… mas tais incidentes eram cada vez mais raros. Agora, ele praticamente passava todo o tempo fumando e paquerando as mortas-vivas inglesas – algumas das quais em excelente estado de conservação.

Bub pôs o cigarro de lado, soltando no ar anéis de fumaça. Aquilo era o paraíso…

7

- Eu pensaria duas vezes antes de descer àquele inferno – Thomas Anderson depositou o copo no balcão do bar. Falava mais para si mesmo, mas Mudd achou que era com ele.

- Alguém vai descer? Mas e quanto à possibilidade de contaminação?

- Trajes especiais. Eles estarão completamente isolados do ambiente que os cerca.

- Certo… Mais um Warp 10?

O engenheiro ergueu o copo para que Mudd o servisse.

- Uma dose. Preciso voltar ao serviço agora mesmo.

Mudd serviu a bebida com diligência.

- Agora, diga-me, senhor Thomas…

- Nada de “senhor”, por favor. E pode me chamar por meu verdadeiro nome… Neo.

- Hã… Tudo bem. Diga-me, Neo, por que ainda não explodimos esse planeta amaldiçoado?

- Parece que ainda há uma possibilidade de que a Terra 666 se safe. Por mim, – Thomas olhou para a bebida avermelhada, então a tomou em um só gole – eu a destruiria sem pestanejar. Aquilo… não é natural.

- Mais uma dose?

- Só mais uma.

Mudd serviu duas doses, fingindo displicência. Queria ver se arrancava alguma coisa interessante daquele velho maquinista do espaço… Thomas não viu – ou fez que não viu.

- É inaceitável que seres humanos existam em condições tão monstruosas – mesmo que não estejam vivos; mesmo que não possamos mais chamá-los de humanos…

- Concordo. É inaceitável.

- Aquilo não é a realidade… se é que me entende, sr. barman.

- Meu nome é Mudd. Harry Mudd.

Mais uma vez, Thomas Anderson bebeu o Warp 10 como se fosse água. Mudd achou melhor não oferecer mais e recolheu a garrafa.

- Não nascemos para ficar confinados a pesadelos… Não estamos aqui para sermos subjugados por qualquer sistema subumano. Nosso maior propósito, Mudd, é alcançar a luz… mesmo que tenhamos de vencer todos os monstros e demônios do inferno.

- Bem falado, bem falado.

- Mas nem todos conseguem. Nem todos possuem a mesma sorte… que eu.

Os olhos do engenheiro se fixaram no vazio. De alguma forma, as rugas em seu rosto circunspeto pareciam agora mais pronunciadas – como se cada sulco assumisse para si uma dor – uma saudade.

- Mais uma dose.

Mudd quase não podia acreditar naquilo. O principal responsável pelo bom funcionamento de uma das naves mais extraordinárias que já vira possuía um ponto tão vulnerável? Quem mais saberia disso?

- Não precisa retornar ao trabalho, Neo?

Thomas se ergueu de supetão, como se tivesse levado um choque.

- Tem razão… Tem razão, Mudd. Obrigado.

Abandonou o bar às pressas, visivelmente abalado.

* * *

- O que vai ser?

- Um refrigerante.

- Refrigerante? Que refrigerante?

- Qualquer um.

- Irritado, Kirk?

- Não é da sua conta, Mudd…

- Claro que é. Tome a soda limonada e conte para seu amigão o que está havendo.

- Não estou para brincadeiras, Harry.

- Certo. Desculpe.

Kirk tomou um gole da bebida e se inteirou do que estava ao seu redor. O bar – um dos cinco a bordo da Ariadne – era um pequeno recinto mal iluminado, apinhado de oficiais e civis que se misturavam às sombras enevoadas do local. Uma música estranha e atonal podia ser ouvida, mas quase sempre era abafada pelo murmúrio incessante. Junto ao balcão, os doze bancos estavam ocupados por gente mais silenciosa e contemplativa – que, assim como Kirk, invariavelmente estava debruçada sobre uma dose ou uma garrafa de qualquer coisa. Diferente de Kirk, no entanto, ninguém ali bebia refrigerante.

Aquele não era o ambiente mais saudável a bordo da nave, Kirk percebeu – mas era uma mudança bem-vinda em relação ao contexto militar e à sua atmosfera sisuda. Pensou em Anna. Ela estaria realmente gostando de sua vida na Ariadne? Estaria se sentindo bem naquele lugar? Ele tinha suas dúvidas. Precisava conversar com ela a respeito – e tomar uma decisão antes que fosse tarde demais para voltar.

- Como está indo em seu novo trabalho, Mudd?

- Detestando cada segundo. Mas conhecer novas pessoas é sempre interessante.

- E quem você já conheceu?

- Acabo de falar com o engenheiro-chefe da nave.

- Um pouco arredio, não?

- Cada qual com seu fardo… embora o dele possa trazer conseqüências mais sérias.

- Como assim?

Mudd se aproximou de Kirk e praticamente cochichou:

- Nosso amigo parece gostar em demasia de poções etílicas.

- Mesmo? Isso é preocupante.

As portas deslizantes do bar se abriram e uma oficial entrou. Imediatamente, o burburinho cessou e as pessoas ficaram imóveis, congeladas entre o medo e o assombro. Era como se o velho clichê dos filmes de faroeste ganhasse vida naquele exato instante.

A garota avançou lentamente na direção do balcão – e ninguém ousou ficar na sua frente. Ao lado de Kirk, um klingon particularmente robusto preferiu se levantar ao ver que ela se aproximava.

Jim Kirk e Harry Mudd ficaram apenas olhando, sem saber o que estava acontecendo. Nenhum dos dois jamais a havia visto. Tratava-se de uma jovem perfeitamente normal, talvez um pouco nova demais para estar naquele lugar. Vestia o uniforme negro padrão da Frota, embora estivesse sem a insígnia-comunicador presa ao casaco. Seu andar era leve como o de uma bailarina, e havia um meio sorriso inocente nos lábios. Definitivamente, não parecia haver ali nada que pudesse causar tamanha reação de temor…

Então, Kirk reparou em seus olhos.

Em um segundo, os olhos de um predador.

Em outro, os olhos de uma fada.

Ela se sentou no banco abandonado pelo klingon. A esta altura, o bar já estava praticamente vazio – e a música martelava nos ouvidos.

- O mesmo que ele – apontou para o copo de refrigerante de Kirk.

Mudd a serviu rapidamente e se afastou sem nada dizer, cauteloso.

- Irritado, comodoro?

- O quê?

- Mudd tem razão. Você está irritado.

A garota riu, então experimentou o refrigerante.

- Você não estava aqui quando ele disse isso – Kirk reparou na divisa que indicava seu posto – Qual o seu nome, alferes?

- Não gostei – ela afastou o copo, fazendo uma careta – Deveria tomar apenas sucos, comodoro. É mais saudável… principalmente na sua idade.

As palavras atravessaram Kirk como navalhas.

- Como é que é?

- Ou vai acabar como a Enterprise, sendo rebocado ao final da missão – ela gargalhou como uma criança que acaba de descobrir um novo brinquedo.

Kirk estava estupefato. Como ela poderia saber? E como poderia ser tão atrevida?

- Seu nome, alferes.

- River – ela disse o próprio nome com displicência, então prosseguiu – Você está chateado porque foi excluído do grupo avançado. As coisas mudaram tanto, não é? Antes, você era o capitão que se arriscava, sempre tomando a dianteira, sempre pronto para enfrentar qualquer perigo. A vida era tão mais divertida… Agora, Sisko sequer olhou para você. Sequer imaginou a possibilidade de colocar em risco a vida de um veterano. E, sinceramente, ele tem certeza que você acabaria atrapalhando.

Ela olhou para Kirk como um gato olha para o rato.

- Não, não sou de Betazed, comodoro. Sou humana como você – provavelmente, o próximo passo na evolução.

- Não me importaria se você fosse a mais recente encarnação de Buda. Está dentro de uma nave da Federação, alferes, e precisa obedecer a algumas regras de conduta.

- Uma outra hora, talvez.

- “Uma outra hora”?

- Você vai perguntar a Anna se ela está gostando de estar aqui. Vai parecer uma preocupação natural com o bem-estar dela… Mas o ponto, comodoro, é que você não está gostando. Não está satisfeito com o papel que está desempenhando, não está contente com sua posição dentro da nave.

Mudd se aproximou com um ar jovial.

- Mais um refrigerante?

- Não – os dois responderam ao mesmo tempo.

Ela sorriu, e era um sorriso genuíno, cristalino.

- Você chamou Tasha Yar, Mudd.

O homem perdeu a cor.

- Não… Quer dizer…

- Tudo bem – River deu de ombros e se voltou para Kirk – Daqui a pouco, estarei com ela na sala de teletransporte oito. Estou no grupo avançado.

- Você?

- Tasha Yar ainda é ágil e rápida. É uma chefe de segurança competente, assim como todo o pessoal que treina. Mas, às vezes, algumas situações requerem alguém como eu.

- Alguém com talentos especiais, ao que tudo indica.

- Eu o derrotaria em segundos.

Kirk encarou River, incrédulo.

- Está tentando me provocar, alferes? Está realmente querendo que eu enfrente você?

Mudd saiu de trás do balcão com uma garrafa de Warp 10 debaixo do braço e se encaminhou para uma mesa nos fundos, onde os últimos três clientes do bar permaneciam. Eram todos klingons, e um deles era o que havia deixado o banco ao lado de Kirk vago.

- Posso me sentar?

Um dos klingons disse alguma coisa ininteligível, mas bastante desagradável de ser ouvida, então empurrou uma cadeira com os pés na direção do humano.

- Então… ela é uma arma letal, hein?

- Talvez, hoje seja um bom dia para morrer – disse o klingon mais velho. Mudd abriu a garrafa com mãos trêmulas e tomou um gole da bebida no próprio gargalo.

- Aconselho a bat’leth – disse a garota – Hora e local, você decide.

- Sei manusear bem a espada klingon. Mas me parece que isso não fará qualquer diferença.

- Não fará. Você cairá em menos de cinco segundos.

- Certo… Diga-me, River, o que aconteceu aqui? Pelo comportamento das pessoas na sua presença, parece que você já aprontou alguma.

Ela fez um movimento rápido com as mãos, ajeitando os cabelos negros. Agora, uma sombra cobria seus olhos, e eles brilhavam como se estivessem no fundo de um fosso escuro.

Os olhos de um predador.

- Foi há um ano. Havia acabado de escapar da Aliança… e de meu próprio universo. Estava assustada.

- E, desde então, tem evitado aparecer em público. Caso contrário, as pessoas já teriam mais confiança em você.

- Gosto de privacidade.

- E não está mais assustada.

- Estou no controle. Posso me conter o suficiente para derrubá-lo sem ferimentos…

- Muito bem.

River se levantou, preparando-se para sair.

- Hora e local, comodoro? Tasha já está chegando.

Kirk olhou para a alferes com um ar divertido. Ele não saberia explicar o que era, mas algo nela a havia traído.

- Agradeço o que está tentando fazer, menina – disse.

- Como? – ela tentou fingir que não compreendia, mas era inútil: River já sabia o que ele estava pensando. Para ela, era inevitável saber.

- Você permitiria que eu ganhasse.

Por um momento, ela apenas ficou em silêncio. Então, abaixou o rosto.

- Estava indo para a sala de teletransporte quando você passou perto de mim. Não pude deixar de ver sua mente… Sei como está se sentindo.

- Mais ou menos como você se sentia há um ano?

- Achei que as coisas poderiam melhorar se conquistasse alguma vitória…

Kirk tocou o rosto de River, fazendo com que ela o olhasse nos olhos.

- Obrigado. Isso é mais importante do que qualquer triunfo que eu pudesse alcançar. E, de qualquer forma… não creio que me sentiria melhor vencendo uma luta contra uma garota que tem metade do meu tamanho – mesmo sabendo que ela poderia derrotar um exército inteiro sozinha.

As portas do bar deslizaram e Tasha entrou, acompanhada por outros dez seguranças – cinco dos quais, Kirk percebeu, eram vulcanos. Ela olhou rapidamente ao redor e suspirou, aliviada.

- River, achei que havíamos combinado que seria bom evitar lugares assim.

- Ela está comigo, tenente. Nós estávamos… dançando.

Tasha prestou atenção à música. Não era possível dançar ao som daquilo.

- Estamos atrasadas, alferes.

A garota lançou um rápido sorriso para Kirk, então se dirigiu para a saída do bar.

Mudd se levantou, cumprimentando os klingons com um aceno de cabeça. Estavam tão perplexos quanto ele.

- Você não perde o jeito com as mulheres, amigão – disse de passagem, então foi guardar a garrafa de Warp 10 em algum canto embaixo do balcão.

Aos poucos, as pessoas reapareceram – e voltaram às bebidas e ao falatório, como se nada tivesse acontecido.

8

Os corredores do multiverso, como as correntes de tempo, assemelham-se às correntezas dos rios – e levam a pontos predeterminados do espaço-tempo dos universos interligados. Não importa se uma nave pertence ao século XXIV da Terra de seu universo de origem – os corredores podem levá-la ao século V de uma outra paralela.

Há de se levar em consideração que há uma inter-relação sincrônica na passagem do tempo nas paralelas conectadas – por exemplo, se dois anos-padrão se passam no universo x, dois anos-padrão também se passam no universo y, mesmo que as extremidades x e y pertençam a períodos completamente distintos entre si. O que determina tal fenômeno é exatamente a existência do corredor xy – que, em termos abstratos, nada mais é do que o ponto em comum no infinito para o qual os dois universos convergem.

(…)

Alguns dos universos são do tipo maleável – o que significa que suas estruturas aceitam viagens no tempo. A história em tais universos não é digna de confiança. Quem saberia, afinal, quantas vezes ela foi reescrita para que o Zefram Cochrane da paralela 13 alcançasse sucesso na primeira viagem em dobra da humanidade? Há indícios que apontam até mesmo a substituição do Cochrane original da 13 por uma versão mais experiente…

Outros universos – de fato, a maioria – são rígidos, lineares, e não permitem saltos temporais. Nessas paralelas, o passado imutável se dissolve na medida em que se caminha para o futuro – e em seu lugar, resta apenas o imponderável e infinito vazio.

Alguns desses universos, chamados de Pró-históricos, foram palco de quase todas as polêmicas missões de “limpeza” implementadas pela Frota da paralela um. De que adiantaria destruir um planeta inteiro se o Ultradomínio pudesse simplesmente voltar no tempo para encontrar o mesmo mundo em outro ponto do espaço-tempo?

A única exceção foi a paralela 666 – na qual as viagens temporais são perfeitamente possíveis (para maiores detalhes, vide os verbetes “Necronomicon Ex Mortis” e “Ash Williams”). A fim de impedir que o Ultradomínio pudesse ter acesso ao passado da 666, uma medida extrema seria tomada (…)

Enciclopédia Interconceitual do Multiverso


Cada macaco no seu galho, pensou Cornelius, comparando suas coloridas roupas civis com os uniformes quase lutuosos dos oficiais do grupo avançado.

- Ok, capitão – disse o chimpanzé – Cornelius 7 se apresentando!

Sisko e Animah olharam um para o outro e riram.

- Dr. Cornelius, não utilizamos a numeração em nossos nomes já há algum tempo – disse o capitão.

- Mesmo? – Cornelius coçou a cabeça – Tenho andado metido apenas com meus livros ultimamente, não sabia disso. Mas é uma boa nova. Números na frente de nomes são…

- Excêntricos?

- Para dizer o mínimo, dra. Animah. Quem gostaria de saber que já encontrei outros sete Cornelius pelo multiverso? Não quer dizer nada. E, por sinal, nenhum deles tem a metade do meu charme – ou de minha inteligência. Não fiquei restrito à arqueologia e à História…

Animah e Sisko se encaminharam para a plataforma de teletransporte e se juntaram a River Tam e Tasha Yar.

- O senhor vem?

Cornelius pareceu indeciso.

- Vocês acreditam que esta película transparente em nossos corpos irá nos proteger de qualquer contaminação? Quer dizer… apesar de um pouco desconfortável, eu sequer consigo vê-la.

- Confiemos em nossa tecnologia, dr. Cornelius – disse Animah – Talvez, ela seja nosso único porto seguro.

- Nunca será o bastante – Cornelius sussurrou, mas ninguém o ouviu.

A Tower Bridge; as Casas do Parlamento; o Palácio de Buckingham; o Royal Albert Hall: sob a neblina, seus olhos divisaram as garatujas do que outrora fora uma grande cidade. Gigantes de pedra e aço retorcidos, curvados pelo peso de sua maior derrota. Ruínas de uma civilização que, como qualquer outra, se julgava eterna.

Sob a neblina, eles também viram a procissão dos mortos, lentos e murmurantes vultos se arrastando nas ruas como as sombras inquietas de pesadelos.

Carne e ossos retorcidos.

Ruínas de homens.

- Nós não podemos permitir que isso continue aqui.

Sisko se voltou para Animah, surpreso.

- Pensei que era totalmente contra tal medida.

- Isso não pode ficar aqui – ela disse, num esgar que retorcia suas belas feições – Eu não fazia idéia. Oh, meu Deus… Eu não fazia idéia.

O capitão se aproximou de sua oficial médico-chefe e a segurou nos braços com firmeza.

- Doutora, preciso de objetividade. Se não for capaz de se controlar…

Animah respirou fundo, então encarou os olhos de Sisko. Lágrimas correram por sua face.

- Não ficarei mais um segundo neste inferno, Ben. Eu… não posso. Sinto muito.

Quando Animah foi teletransportada de volta para a Ariadne, Sisko se dirigiu ao restante do grupo avançado:

- Mais alguém?

Tasha e Cornelius nada disseram. River deixou escapar uma risadinha.

- O que foi, alferes?

- Eu tomaria cuidado com Animah, capitão. Se pudesse, ela dispararia o míssil agora mesmo.

- Você sentiu isso?

- Sim.

- Bom… Então, vamos ser gratos ao fato de que ela não pode. Vamos continuar.

Eles caminharam por horas: o estádio de Wembley; a Torre de Londres; a London Eye; o Piccadilly Circus; finalmente, o Museu de cera Madame Tussauds, em cujas imediações se encontrava o último homem vivo de toda a Inglaterra.

Sisko leu seu tricorder rapidamente.

- Ele não está longe.

- Ótimo. Estou cansado de andar.

- Dr. Cornelius… não percorremos Londres como turistas. O senhor certamente conseguiu obter informações em nosso trajeto.

- Na verdade, não vi nada além de muita neblina. Não fomos ameaçados em nenhum momento, mas isso pode significar apenas que eles não nos viram. Acredito que…

- Capitão – Tasha interrompeu Cornelius e apontou para a entrada do museu. A oficial estava perplexa.

A princípio, Sisko não acreditou em seus olhos. Aproximou-se devagar, quase como se estivesse entrando em terreno sagrado. Emergindo da neblina como os últimos sobreviventes de um tempo perdido, homens e mulheres partilhavam um jogo impossível, um momento congelado na eternidade: lá estavam Joe DiMaggio, Pelé, Michael Jordan, Boris Becker, Nadia Comaneci, Muhammad Ali, Ayrton Senna, Martina Navratilova… Uma rebatida, um passe, uma cesta, um gol, então um salto imortal: e era quase possível ouvir o aplauso da multidão.

Era quase possível sorrir novamente…

River tocou o rosto delicado de Comaneci.

- Quem são eles?

- Eles? – Sisko colocou a mão no ombro de DiMaggio – Reis e rainhas, River. Os gigantes que caminham entre nós.

- Seres humanos, capitão – retorquiu Cornelius – Apenas seres humanos.

- Sim. Isso também.

- Há mais ali na frente – a alferes correu e entrou em outro círculo de homens e mulheres de cera, agora no meio da rua.

- Aqui estão Jerry Lewis, Charlie Chaplin, Lucille Ball, Laurel e Hardy, os Três Patetas, Buster Keaton… – Sisko se deteve – Veja.

Mais adiante, alguns mortos-vivos carregavam mais figuras de cera, dispondo-as com cuidado em outro agrupamento.

Tasha Yar checou instintivamente seu rifle phaser.

- O que estão fazendo?

Sisko identificou rapidamente os integrantes da roda: Elvis Presley, Fredie Mercury, Tina Turner, Frank Sinatra, Jimi Hendrix, Michael Jackson…

- Eles sabem o que as figuras significam… Eles se lembram.

- Eles se lembram – repetiu Cornelius, admirado.

- É claro que se lembram.

Sisko, Cornelius e Tasha se viraram rapidamente na direção da voz, assustados.

- Não se preocupem – disse River, deslumbrada com o rosto monolítico de Buster Keaton – ele é inofensivo.

Ash ficou parado por um tempo, indeciso sobre o que dizer.

- Ei, não sou tão inofensivo assim… Mas não importa. Quem são vocês?

Apresentações foram feitas.

- Universo paralelo? Século XXIV? Nave em órbita? E eu achando que já havia visto de tudo… – Ash olhou para Tasha Yar e deu uma piscadela – Parece que belas loiras não são raras em seu mundo. Não é, docinho?

A chefe de segurança da Ariadne checou o rifle phaser mais uma vez. Vou mostrar o docinho para você, babaca…

Explicações foram dadas.

- Então, eles deixaram de lado o cigarro e começaram a se preocupar com o mundo que os cerca.

Ash ficou olhando para Cornelius como se estivesse hipnotizado. Ele estava falando com um macaco.

- Certo, senhor?

O homem sacudiu a cabeça, tentando se libertar do transe.

- Certo… De uma hora para outra, tudo mudou.

Cornelius se voltou para Sisko:

- Eles estão se organizando – o que indica que há uma estrutura mental como base. Talvez, comprar e fumar tenham sido os primeiros passos na direção de sua estruturação interna. Agora, eles estão reproduzindo no mundo os recentes avanços intelectuais – estabelecendo categorias, elegendo prioridades… Os mortos não estão mais preocupados com a saciação de sua fome – no momento, tudo o que interessa é a possibilidade de recuperação de seu passado.

- É um fenômeno local ou será que já acontece em outros lugares? – perguntou Tasha.

- É um fato que indica quem eles são em termos de potencial – disse Cornelius – Mesmo que tenha acontecido apenas aqui, é questão de tempo para que as mesmas condições se reproduzam em locais diversos.

- Não temos o direito de destruí-los – disse River – Não temos o direito de nos intrometer. Mesmo que não exista futuro para este mundo, ele possui um presente.

- Ainda há o risco dos mortos serem usados como armas de destruição em massa.

- Sim, tenente – disse o capitão – Mas acho que vamos ter que aprender a conviver com isso.

Ele se aproximou do morto-vivo que estava tentando ajeitar Tina Turner e sorriu. Por alguns instantes, a criatura ficou imóvel, como se estivesse tentando adivinhar o significado daqueles dentes à mostra. Como se estivesse tentando se lembrar.

Olhou para um lado…

Olhou para o outro…

Então, finalmente, ela sorriu de volta – e com grande satisfação. Ela não entendia exatamente o que estava acontecendo, mas rir era bastante agradável.

* * *

USS Ariadne: na escuridão, mãos nervosas digitaram uma sentença de morte. Um a um, dispositivos de segurança cederam – e sem que ninguém pudesse fazer nada para impedir, os Langoliers foram soltos.

9

O míssil deveria entrar em dobra dois minutos após seu lançamento – o que daria tempo de sobra para destruí-lo ou simplesmente trazê-lo de volta. Entretanto, tão logo ele foi lançado, seu propulsor warp foi ativado – e quando todos na ponte de comando se deram conta de que algo estava errado, era tarde: a ogiva com sua carga mortífera já havia se materializado no núcleo da estrela.

- Como o míssil foi liberado? – o alferes que substituía Tasha Yar no console do posto tático olhava para seus instrumentos sem conseguir acreditar no que estava diante dele.

- Não é hora para isso, alferes. Spock para capitão Sisko – o vulcano tocou em sua insígnia e ficou à espera. Finalmente, Sisko respondeu:

- Sim, sr. Spock?

- Vocês serão trazidos a bordo imediatamente, capitão. Sr. THX – Spock entrou em contato com o engenheiro auxiliar, que neste momento estava na sala de teletransporte três – Traga todo o grupo avançado direto para a ponte… agora. Lembre-se de deixar os trajes herméticos no planeta.

- O quê? – Sisko começou a protestar, mas não houve tempo para mais nada. No segundo seguinte, Ben Sisko, Tasha Yar, River e Cornelius estavam na ponte de comando.

- O que aconteceu?

- O míssil foi lançado.

Sisko ficou olhando para Spock como se este houvesse enlouquecido.

- Quem…?

- Alguém de inegável habilidade acessou o código de lançamento e acionou o míssil diretamente da câmara de torpedos. Não pudemos impedir que ele entrasse em dobra.

- Mas eram dois minutos para abortar…

- O delay foi reprogramado para três segundos, capitão.

Sisko se voltou para a tela da ponte, atordoado. O Sol já estava começando a engolir Mercúrio.

E pelo fogo, todo o mal seria transformado em cinzas…

Mas onde estava o mal?

- Tire-nos daqui, piloto – disse, e desabou em sua cadeira.

* * *

Bub olhou para o céu, sentindo que havia algo estranho no ar. Por que os pássaros haviam sumido? Por que aquele silêncio pesado e sombrio, como se o próprio tempo tivesse parado?

Fosse o que fosse, seu amigo parecia não perceber nada. Ash chegou de sua segunda reunião com a gente do espaço e se sentou na cadeira de praia.

- O que… acontece agora?

Ash trazia consigo uma garrafa de água. Um calor insuportável havia se instalado em Londres nos últimos minutos, afastando as nuvens e a neblina sobre a cidade. Aquilo não era normal – mas, diabos, o que tinha sido normal nos últimos anos?

- Vão providenciar para que todos os sobreviventes ao redor do mundo sejam trazidos para cá, onde os mortos já alcançaram um nível mais elevado de evolução.

- Vivos e mortos convivendo?

- Acha difícil?

- Os vivos… me preocupam.

- No início, teremos alguns problemas, é claro. Mas irei ajudá-los a se adaptar à nossa nova ordem.

- Você? – Bub fez uma careta e riu alto.

- Ei, eu vendi cigarros para os mortos! Depois disso, acho que sou capaz de qualquer coisa.

- Pode… ser.

- O pessoal da Terra paralela também vai enviar algum auxílio com o tempo. Enquanto isso – Ash apontou para o Remington – vamos deixar bem claro que não iremos tolerar violência.

- E usar… armas… torna tudo mais fácil?

- Não fui eu quem inventou a estupidez humana, Bub. Estou apenas dando a minha versão.

- Bub também tem… versão própria – Ele pegou um cigarro do bolso de sua camisa havaiana – Bub não consegue parar de fumar.

Ash pegou um isqueiro e acendeu o cigarro.

- Ninguém é perfeito, chefia.

Bub deu uma longa tragada e ficou quieto durante um tempo. Então, uma idéia passou por sua cabeça.

- Vivos… irão fazer bebês?

- Vamos fazer o futuro. Vamos dar chance para que novos idiotas possam habitar este planetinha azarado.

- Mas vivos vão se tornar mortos um dia… Então, o que… acontecerá? Vivos começarão a destruir… corpos de mortos… para que eles não voltem a andar? Ou vivos… permitirão que mortos existam?

Isso não era bom: pela primeira vez, Ash percebeu claramente como seria difícil a convivência entre os dois lados. Não era apenas uma questão de se aceitar a morte (e sua presença ostensiva). Agora, e principalmente nos dias que viriam, eles precisariam lidar com disputas territoriais, preconceitos existenciais (por certo, cedo ou tarde algum espertinho estipularia a máxima do “Penso e vivo, logo existo”), crenças religiosas…

Tomou um gole d’água e ergueu a garrafa, tentando proteger os olhos da luz cegante do Sol.

- Eu não sei. No que depender de mim…

Ele não conseguiu terminar sua frase.

Em um segundo, a água se evaporou, o ar ao seu redor se encheu de chamas, o chão aos seus pés se transformou num rio de lava. Ash percebeu a própria pele se queimando, sua carne gritando em chagas fulgurantes de luz, sangue e fogo. Ele se perguntou o que mais faltava para acontecer.

O morto olhou para o céu subitamente vermelho uma última vez – e naquele derradeiro momento antes que sua consciência se esvaecesse em meio ao fogo, conseguiu sussurrar:

- Agora… Bub descansa.

Ao seu lado, Ash se tornou cinzas – e fez, enfim, jus ao próprio nome.

10

Marcas digitais na câmara de torpedos quânticos; registros de hackeamento do sistema central da Ariadne para posterior acesso não autorizado aos arquivos de segurança máxima: não fora difícil descobrir a identidade do responsável. Aliás, ele sequer se preocupara em tentar esconder seus inevitáveis rastros.

- Você tem idéia? – Sisko desferiu outro soco em Thomas Anderson – Tem idéia do que acabou de fazer, desgraçado?

O engenheiro se deixou ficar caído no chão da ponte de comando. Ele não se importava com mais nada.

- Eu acabei com os monstros.

- Quer acabar com os monstros? – Sisko gritou, e sua voz era a soma de todas as frustrações – Então, acabe com você mesmo!

Ao comando de Tasha Yar, dois seguranças ergueram Thomas, que não ofereceu resistência. Não havia um isto em sua expressão – ódio, tristeza, medo… Era apenas o vazio manchado de sangue e cheirando a aguardente.

- Vamos enviar alguém de volta no tempo para impedi-lo – Tão logo deu a sugestão, Spock se voltou para os monitores de seu posto, o olhar compenetrado. Ao perceber o desânimo quase que instantâneo no rosto do vulcano, Kirk se aproximou. Havia uma expressão em vermelho em várias das telas que não inspirava nenhuma confiança:

LANGOLIERS LIBERADOS

- Ouviu? – Sisko se sentou em sua cadeira, procurando se acalmar – Vamos trazer seus monstros de volta.

- Vocês não podem.

- É claro que podemos. Aliás, farei isso pessoalmente. Vejo você ontem.

- Não há mais ontem. Eu matei o passado.

Então, Sisko se lembrou. Ele se voltou para Spock, ansioso para que seu receio não se confirmasse.

- Ele pensou em tudo – disse o oficial de ciências.

- Os Langoliers?

- Os Langoliers.

- Mas… como?

Thomas Anderson olhou para o capitão da Ariadne com indulgência.

- Da mesma forma que obtive o código para lançamento do míssil. Sou melhor hacker do que engenheiro, capitão.

Sisko colocou a cabeça entre as mãos. Imaginou os devoradores se entranhando na estrutura daquele universo, destruindo o substrato dos eventos pretéritos. Em sua mente, enxergou as partículas esféricas com suas bocas dilacerantes, os dentes pontiagudos a rasgar as quatro coordenadas do ontem, não deixando nada a não ser o vazio em seu lugar.

- Vocês podem ir ao meu universo natal e voltar no tempo para impedir que eu seja gerado. Vocês podem criar os paradoxos que bem entenderem… Mas o universo 666 permanecerá sem passado.

Sisko fez um sinal para os seguranças.

- Levem-no.

Quando as portas do turboelevador se fecharam, ninguém disse nada na ponte por vários minutos.

Animah simplesmente não conseguia tirar os olhos do chão – talvez, pela vergonha de saber que ela faria o mesmo que Thomas Anderson, se tivesse oportunidade. Talvez, pela impossibilidade de realizar uma análise acurada dos eventos que haviam permitido que Ash dormisse por séculos – isolando-o de tal forma do ambiente externo que ele não fora detectado pelas sondas da última nave a estar na paralela 666. Teria sido Ash, ao menos enquanto estava hibernando, também poupado do contágio? Fosse esse o caso, encontrar uma cura não seria absolutamente impossível…

Animah percebeu a contradição em suas idéias e motivações. Entre o desejo de destruição e o desejo de cura, ela evidentemente sempre escolheria o último – mas agora era tarde demais.

Tasha Yar fingia que prestava atenção em seu painel no posto tático – mas tudo o que fazia era se lembrar de sua filha, Sela, abandonada na paralela 13. O passado parecia ainda tão próximo e terrível… Às vezes, Tasha sonhava que, de alguma forma, não havia conseguido alcançar o presente, e que os Langoliers viriam pegá-la…

Spock se voltou para seus monitores e ficou atento às leituras que apontavam o rápido crescimento do Sol. Se a Terra fosse de fato incinerada (espelhando o que já havia sido testemunhado em outras realidades) e não restasse nada – então, do ponto de vista estritamente estratégico…

Sisko olhou para Kirk.

- Como tudo deu tão errado? – perguntou, quebrando o silêncio.

- Eu não sei. Às vezes, tenho a sensação de que algumas coisas estão destinadas ao fracasso e à derrocada. Mas essa é uma resposta fácil, que tende a encobrir nossas falhas.

- Talvez tivesse sido melhor enviar uma nave de máquinas, afinal. O fator humano é imprevisível demais para ser controlado.

- Quem garante que os robôs também não destruiriam a Terra? Quem garante que a prioridade das máquinas não seria simplesmente completar a missão original de extermínio, a despeito de qualquer coisa?

O capitão da Ariadne assentiu com um leve movimento de cabeça, então se dirigiu ao turboelevador.

- Sr. Spock, o comando é seu. Estarei em meus aposentos nas próximas duas horas.

* * *

- Não… – Sisko despertou e ergueu a cabeça, olhando para seu pai.

Joseph colocou uma panela no fogo e se aproximou da mesa em que Ben estava. O restaurante agora era apenas silêncio, todos os clientes já haviam ido embora.

- Estava sonhando?

- Alguém apagou o passado. Eu queria impedir, mas…

Joseph Sisko o interrompeu, mostrando o velho relógio de corda que estava em seu bolso.

- Vê?

Ben ficou surpreso.

- Não há ponteiros.

- Exatamente: não há ponteiros.

Sisko acordou e se levantou imediatamente. A escuridão em seu quarto o recebeu com um abraço frio e seco.

- Luzes.

Foi ao replicador e pediu um copo de raktajino.

Sem perceber, cambaleando entre os restos de sonho e as roupas jogadas no chão, caminhou até o canto do quarto em que raramente colocava os pés.

Ali estava ele: um segredo abandonado há anos nas sombras – sempre à espreita, sempre esperando por um minuto de atenção.

Sisko se sentou na frente da relíquia e permaneceu um bom tempo imóvel.

A última lembrança do tempo em que os finais felizes eram uma certeza.

O último sobrevivente do mundo colorido e iluminado de sua infância.

Não há ponteiros…

Ele deixou que as mãos pairassem como pássaros acima das teclas.

Então, num vôo lento e descendente, tocou suavemente o piano que fora de seu pai.

11

Cinco séculos atrás, Terra 666:

*

Os estrangeiros chegarão, então nossa casa parecerá melhor

Mesmo em face da morte, mesmo em face da dor.

Mas um homem decidirá o destino do Sol,

E com os dias do passado, também os dias do futuro desaparecerão.

*

Michel de Nostradamus largou a pena e olhou para o filho, César, absorvido em seus desenhos. Páginas e páginas de castelos, estrelas, cometas errantes, heróis e princesas… Decerto, as representações refletiam os sonhos da criança e prometiam um mundo maravilhoso.

O profeta suspirou, então se voltou novamente para a quadra que acabara de escrever – para o tenebroso amanhã que acabara de vislumbrar.

- O principal responsável não será o peão, evidentemente. Haverá um rei orquestrando tudo, oculto em sua fortaleza… Este é o homem que destruirá nosso lar.

- Aqui está o vilão. Quer ver? – César levou até o pai o papel no qual estivera desenhando por último.

- O quê?

O garoto sorriu.

- O senhor não está falando com o futuro através de palavras? Estou conversando com ele através de desenhos. Veja.

Nostradamus pegou a folha e viu nela a representação dum rosto austero e envelhecido de homem: uma rocha de olhar sombrio e determinação férrea. Sob o olho esquerdo, descendo até a ponta do queixo, havia uma terrível cicatriz.

CARLOS BITTENCOURT