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Enquanto isso, em algum universo altamente improvável…

HERÓIS DA TV


São Paulo:

- Meus poderes são requisitados novamente! Viva!

Capitão 7 socou o morto que estava por ali tentando morder um de seus braços. Depois, voltou a saltitar alegremente pela Avenida Paulista.

- Ontem, eu era apenas mais um dos velhos perambulando pelas ruas de um país que não os respeita. Hoje, acordei e descobri que o Brasil precisa novamente de seu primeiro super-herói… Isso é revigorante! Isso é supimpa!

Com graça e leveza, esmurrou outro morto que cometeu a imprudência de atravessar seu caminho.

- O único problema… é que ninguém está aplaudindo meus feitos. Onde estarão as câmeras de tv? Os repórteres do canal 7? Alguém ainda vivo por aí?

Washington:

- Max?

- Sim, 99?

- Tem um morto-vivo atrás da gente.

- Um agente da K.A.O.S. disfarçado, com certeza. Vou ligar para o chefe e pedir reforços.

Maxwell Smart tirou do pé o sapato-fone e discou o número do C.O.N.T.R.O.L.E.

- Alô? Chefe? Tudo bem? Não? Ah, sim. Um momentinho, chefe.

- O que foi, Max?

- O escritório do chefe está cercado por mortos-vivos. Ele está querendo nossa ajuda. É estranho…

- O que é estranho?

- Ele pode estar sendo coagido, 99.

- Uma armadilha?

- Exatamente. Espere aí. Alô? Chefe? Oi, sou eu de novo. Apenas para me certificar, o senhor poderia fornecer a senha que utilizamos nos casos em que emergências não são armadilhas? A senha que… Ah, não?

O agente 86 colocou o sapato-fone de lado.

- E agora, Max?

- Nós não temos uma senha para emergências que não são armadilhas – De repente, ele teve uma idéia – Chefe, nós temos uma senha para emergências que são armadilhas? Também não?

- Max, o morto-vivo continua se aproximando.

- Finja que não é com você.

- Acho que é um morto-vivo de verdade.

- Não seja ridícula, 99. Alô? Chefe? Ainda está aí, chefe?

- Max, o morto-vivo me mordeu.

- E o chefe desligou. Mas que falta de educação…

- Max…

- Um momentinho, 99. Estou ligando novamente. Alô? Chefe? Como? Pode repetir…? Hã… Aguarde um instante. Ei, 99, o chefe não está falando coisa com coisa.

- Guh…

- É exatamente o que o chefe disse, 99! Como sabia?

Cidade do México:

Mais veloz que uma tartaruga… Mais forte que um rato…

- Sigam-me os bons!

Chapolin Colorado começou a correr a toda. Ele é que não iria ficar perto de nenhum morto-vivo.

- Oh – disse uma dama em perigo – Agora, quem poderá me defender?

- Eu é que não! – gritou Chapolin, já longe – Estava satisfeito em ser reprisado na tv. Agora, eles me inventam novos vilões e pedem que eu faça alguma coisa! Aproveitam-se de minha nobreza… Pois chamem o Superman!

- Mas, Chapolin…

- Não contavam com minha astúcia!

De repente, trombou com uma centena de repelentes mortos-vivos, indo parar no chão. Levantou-se mais que depressa, arrumando as antenas sobre a cabeça.

- Então, vocês estão em toda parte. Suspeitei desde o princípio.

Disparou na direção contrária e, novamente, colidiu com uma muralha de mortos-vivos.

- Vocês podem não acreditar, mas todos os meus movimentos são friamente calculados…

Tóquio:

- Detesto zumbis. Onde estão os monstros criados pela mente poluída e macacal do Dr. Gori?

Spectreman distribuiu uma série de golpes que derrubou dúzias de mortos-vivos babões que insistiam em se aproximar.

- Minha especialidade são criaturas colossais que podem destruir um quarteirão inteiro com um passo. Mortos-vivos são… repugnantes! Não possuem carisma! Tudo o que eles fazem é… ai! Você me mordeu, seu nojento!

Gotham City:

SOC!!!

- Santo Dia das Bruxas, Batman! Estamos cercados por terríveis mortos-vivos! E socos não parecem estar funcionando!

STAPEIA!!!

- Nem tapas! Mas acalme-se, garoto prodígio! Tenho aqui comigo a arma perfeita contra tais energúmenos – o bat-repelente de zumbis!

SSSPRAY!!!

- Está dando certo, Batman! Eles estão se afastando!

- Claro que estão, Robin! Lembre-se: um homem prevenido vale por dois!

TRASH!!!

- Hã… “Trash”?

- Não dê ouvidos a onomatopéias de caráter ambíguo, Robin. Continue usando o bat-repelente!

BIG TRASH!!!

Sighişoara, Transilvânia:

- Scooby-Doo, cadê você?

- Aqui, Salsicha. Dentro do barril.

- Pode sair agora. Já pegamos o vilão que, nos últimos dias, estava assustando as pessoas no castelo.

- Vocês capturaram o morto-vivo?

Fred, Daphne e Velma riram a valer.

- Não é um morto-vivo de verdade, Scooby. É só alguém fantasiado. Agora, vamos ver quem é – Fred se aproximou do homem amarrado para tirar sua horrível máscara.

- Pois eu não saio de dentro do barril até estar tudo esclarecido – ganiu o cachorro.

- Você vai ver, Scooby. Você… hã… A máscara não sai.

- Não sai? – Scooby-Doo gritou – Não é um disfarce! É um morto-vivo de verdade!

- Deixe de besteira… Ah! Saiu!

Fred, Daphne, Velma e Salsicha exclamaram ao mesmo tempo:

- Sr. Reginald! O próprio dono do castelo!

- Sim! Eu queria atrair mais turistas! As pessoas adoram levar sustos – principalmente se acham que tudo é real! E mortos-vivos estão na moda! Eu ficaria milionário se não fosse por vocês, garotos intrometidos…

Salsicha respirou aliviado.

- Sorte que pegamos de cara o chefão… Agora, vamos chamar a polícia e prender o restante do bando.

- Bando? Que bando?

Velma se inclinou, muito satisfeita consigo mesma:

- Não se faça de desentendido, sr. Reginald. Desde hoje cedo, há muitos fantasiados perambulando pelo castelo.

- Não sei do que está falando.

Um cadáver reanimado saiu das sombras naquele exato instante, a bocarra escancarada exalando o hálito inominável da morte.

Os outros chegaram logo depois, famintos.

O espaço e além…

Poc!

A Coração de Ouro surgiu acima do planeta como se fosse um grão de milho estourando. A nave, branca e elegante, ainda rodopiou por um momento, então entrou desgovernada na atmosfera da Terra.

- Odeio muito tudo isso – disse seu único tripulante, um robô humanóide que suspirava com consternação suficiente para levar, em segundos, o ser humano mais alegre às raias da mais cabeluda depressão.

Poc, Poc… Poc, Poc… Poc, Poc!

A Coração de Ouro pipocou seis vezes pela superfície do planeta. Depois, num derradeiro e intenso soluço, desapareceu deste universo para sempre:

HIC!

Sentindo-se miseravelmente abatido, Marvin – o robô – olhou para o lado. Para sua surpresa, viu, amontoados a um canto da cabine de controle, seis novos e chocados passageiros.

- Quem são vocês…? Como vieram a bordo? – perguntou com a voz arrastada – Não que eu me importe muito ou… Na verdade, eu não me importo nada. Com o gerador de improbabilidade infinita funcionando da forma como está, pode-se esperar de tudo. É a vida… Maldita vida. Apenas não toquem em nenhum painel ou botão e me deixem em paz.

Marvin rangeu e se encolheu em sua desgraça, apoiando a cabeça metálica nas mãos.

- Santa mudança de ares! – exclamou um moleque que usava cueca verde e camisa vermelha como uniforme. Os outros também se manifestaram:

- Homessa! O Canal 7 deveria fazer uma reportagem sobre esta sua espaçonave, amigo!

- O velho truque do robô deprimido na nave descontrolada que aparece do nada. A K.A.O.S. não me engana.

- Todos os meus movimentos bancários são friamente calculados. Você me ajuda a sair daqui e eu te arrumo uns trocados. Que tal, homem de lata?

- Scooby-Doooooo, cadê vocêêêê?

- Pérfido robô do mal! É você quem está por trás das ameaças que infestam Tóquio?

Algo nas engrenagens de Marvin chiou, fazendo com que ele emitisse um longo gemido de pura e insuportável infelicidade.

- Quando você acha que já chegou ao fundo do poço…

Poc!

CARLOS BITTENCOURT