O Ultradomínio: Prelúdio 1
NEMO NAS TERRAS DO SONHAR
- Paprika.
- Sim, Nemo?
- Paprika… onde você mora?
- Ora, aqui mesmo, aonde você vem sonhar todas as noites.
- Mas você sai de vez em quando?
- Pequeno Nemo, que menino curioso você é! Sim, às vezes, saio do Sonhar. Mas o mundo virtual dos computadores não é tão rico ou interessante, de modo que só vou lá quando é necessário – Paprika mirou a imensidão do Reino, contemplando as planícies que se estendiam a perder de vista, e as cabeças dos sonhadores a deslizar na onirosfera, murmurando devaneios de vento.
Nemo olhou para cima, para o céu estrelado, e percebeu que as estrelas conversavam umas com as outras.
- Sobre o que elas estão falando?
A garota ficou quieta por instantes, como que para ouvir os astros. Então, meneou a cabeça em afirmação.
- Elas estão animadas com a visita de Morpheus. Ele está chegando.
Nemo arregalou os olhos.
- Oh, aquele homem assustador! Tenho medo dele, Paprika!
- Mas não precisa ter medo, meu querido Nemo… – Paprika ajeitou os cabelos ruivos e se agachou para ficar na altura da criança – Veja, Lorde Morpheus está bem ao nosso lado. Vire-se e cumprimente o homem vestido de noite.
- Oh, não! Não, não, por favor! Tenho medo!
Nemo se afastou do homem soturno, pulando por sobre as grandes cabeças sonhadoras que flutuavam por ali naquele instante – e as cabeças, com seus olhos de lua cheia, se assustaram e se amontoaram umas sobre as outras, criando uma montanha de abismo e de espanto.
Nemo tentou escalar aquele estranho monte, mas as cabeças, nervosas, não paravam de se mover. Ele acabou perdendo o equilíbrio e começou a cair.
- Oh, não! Socorro!
Foi quando Nemo despertou.
CARLOS BITTENCOURT
