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O Ultradomínio: Prelúdio 2

VESTÍGIOS DO APOCALIPSE

Na frente da tela de seu computador, ou segurando as folhas nas quais imprimiu este texto, você se sente confortável e seguro de si. Em seu mundinho perdido em algum universo irrelevante, você acredita que temos o futuro inteiro pela frente.

Você está convenientemente longe.

De qualquer forma, posso assegurar: o futuro não é importante para mim. Não significa nada.

O passado, ao menos, guarda seu encanto. Chame de nostalgia, se quiser. Velhos nichos apinhados de imagens, estigmas, sombras.

Velhas lembranças.

Volto o rosto para o pretérito – mesmo que seja feito de dor e tormento.

E eu me lembro…

Eu me lembro de todas as pessoas que assassinei. Todas as pessoas que matei em nome de meu governo.

Eu me lembro dos olhos de cada um deles – de cada um dos malditos sanguinários, psicopatas e terroristas cujas vidas tive o prazer de abreviar.

E eles sempre voltavam.

Eles voltavam e falavam comigo com suas vozes mortas e rascantes: davam-me conselhos; caçoavam de meus métodos; elogiavam minha frieza. Conformado, eu conversava com espíritos que deveriam estar ardendo no inferno. Ou, talvez, os facínoras já estivessem lá: talvez, minha mente fosse o subterrâneo para o qual haviam sido enviados.

Mas todos eles se foram. Desde que fui arrancado da escuridão, as vozes cessaram seu burburinho: os demônios partiram.

No lugar deles, estas horas frias e enevoadas no peito. A insipidez de um Éden silencioso, insuportável.

Por isso, prefiro as lembranças tumultuosas, as reminiscências de uma psicose que não me concedia trégua.

Não há presente. Não há futuro.

* *

- Vocês estão livres das trevas. O pesadelo ficou para trás. Esta Terra… estes vales, estes rios, estas montanhas… tudo pertence a vocês. Façam valer a pena.

A criança-deus sorri em meio às árvores frondosas do novo mundo, quase como se esperasse por uma ovação. Ninguém diz nada. As pessoas parecem desbotadas, manchas sem sentido. São milhões – vagos, desconexos, sonâmbulos. Somos nada.

Eu me afasto da multidão em brumas e acabo encontrando um riacho de águas cristalinas. Vejo meu reflexo distorcido na água – e me deparo com uma lacuna, um vazio.

- Uma nova Terra. Não é uma graça?

Um homem com a face marcada por cicatrizes fundas se aproxima, bêbado, e me oferece sua garrafa de whisky. Não me importo em permanecer calado.

- Depois de um gole ou dois, vai ver que este lugar é tão ruim quanto parece – ou até pior. Pense bem: um mundo a ser desbravado pelos sobreviventes de outras Terras… e devastado por seus descendentes.

O homem corpulento ri, e seu riso rouco soa como um motor engasgado.

- Nada como um pouco de mentalidade pós-apocalíptica para alegrar o dia. Mas é o que somos, não? Viemos de mundos destruídos, provamos o gosto amargo do fim, e agora aquele fedelho quer que fiquemos felizes no paraíso… Por que não nos deu o inferno? Ao menos, pareceria real.

Ele toma um gole da bebida.

- Pode me chamar de Blake. Edward Blake. Ou pode me chamar de Comediante. Mais apropriado. Qual o seu nome?

- Christopher Smith.

Ele toma outro gole da bebida.

- Foi o que me disseram. E também me contaram que você é o Pacificador. Um filho da puta durão que trabalhava para o Tio Sam, como eu. Se não se importa, Chris, meu velho, vou partir sua cara ao meio.

Blake joga a garrafa no chão e cerra os punhos de forma patética.

- Vamos! Vamos ver se… – Sem conseguir terminar a frase, ele cai e fica de joelhos. O motor ruge mais uma vez em sua garganta.

- Também não consegue sentir mais nada, não é, Blake?

Ele assente e, com mãos trêmulas, pega um charuto no bolso da camisa.

- A não ser o efeito do álcool. O que foi que tiraram de nós? O que foi que perdemos? Alguém tem que me explicar…

Um brilho no céu chama nossa atenção. Num rastro de luz, a criança-deus alça vôo, despedindo-se de nós com seu sorriso ingênuo.

Então, no exato instante em que a entidade desaparece, a piada é revelada.

O novo mundo, um segundo atrás tão vasto, agora não possui espaço sequer para uma exclamação de alívio, um riso nervoso, um lamento fingido. Mesmo a memória, meu último refúgio, se esvai no ar.

De repente, não temos mais nada. E você, se estivesse aqui, certamente se esconderia no buraco mais próximo, aterrorizado. Você, antes tão certo a respeito de nosso futuro.

- Meia-noite – o Comediante murmura.

CARLOS BITTENCOURT