07

Dos arquivos confidenciais da Frota: O Ultradomínio

POR QUEM BRILHAM AS ESTRELAS

Há muitos anos, Paprika deixou de ser o alter-ego onírico da psicoterapeuta Atsuko Chiba e passou a existir como uma entidade virtual independente, graças aos avanços em macrodissociação quântica. O conceito de que as idéias possuem vida própria tornou-se uma realidade literal – corroborado, em outra esfera, pela prova material dos mundos fictícios interconectados do multiverso.

Dr. Toratarō Shima, Terra Um

Talvez, as trevas que enfrentamos desde os primórdios de nossa existência em realidades infindas possuam uma única fonte, um mesmo substrato. Esses terrores podem não passar de reflexo distante de um mal mais antigo…

Sarek, Vulcano Um

Somos o sonho do mundo.

No entanto, percorremos a vida como se possuíssemos controle absoluto de nossos passos: queremos acreditar que os sonhadores somos nós, que o destino está em nossas mãos.

Mas o mundo gira – e a despeito de nossas grandes ilusões e suspeitas convicções, a história segue seu próprio caminho, sua própria lógica.

Ontem, estive no sonho de uma criança – e era tudo tão leve que eu pude planar sob estrelas que sorriam.

Ontem, eu fui feliz.

Então, o mundo deu mais uma volta – e agora, a realidade me colhe como se eu fosse uma folha na ventania.

Hoje, as ruas vazias e escuras de uma cidade condenada me assombram.

Hoje, um buraco negro me olha nos olhos, faminto.

1

Quando tudo começou:

Estava no sonho de Balok, um Porviroscópio de Lobato em sua essência. Enquanto sonha, ele enxerga o futuro com olhos d’águia – uma centelha fragipequena no meio do turbilhão do tempo.

- Paprika, onde você está?

- Em suas mãos. Você me transformou em telescópio.

- Ah, sim. Para onde quer que eu olhe, você verá a mesma coisa. Bem funcional, mas… hum… prefiro você em sua forma original: uma bela garota de cabelos vermelhos.

- Então, aqui estou eu. Pronto. E agora, Balok… qual futuro você quer enxergar?

- Não sei… Não tenho controle sobre o processo. Você sabe, os de minha espécie só adquirem o dom após o Kor-Yantissav, que é a remodelação sináptica dos dez séculos. Ainda estou me acostumando a tudo isso.

- Teria sido bem útil quando você estava no comando da Fesarius.

- Com certeza… Mas, às vezes, é também inútil. Ontem, por exemplo, sonhei com o futuro de Marte 1639.

- E como era? E como será?

- Muito vermelho e muito deserto. Uma perda de tempo. Diferente de Marte 564… Chegou a ver os marcianos de lá?

- Você os mostrou para mim.

- Um dia, eles se tornarão aliados da humanidade.

- Antes, não haverá uma guerra?

- Sim. Ah, Paprika, veja.

Ele me indicou uma nova imagem – um estilhaço de sonho à frente do precipício em que estávamos, queimando no céu violeta como as ondas etéreas de uma aurora boreal.

- Terra 816. Não é para onde estamos?

- Para onde “vamos”, você quer dizer. Chegaremos lá em algumas horas.

- Sim. Ainda me confundo nos sonhos. Nunca sei o que já é… o que será… e o que pode ser. Mas não é lindo?

Era mesmo uma bela visão, até para alguém que já havia visto de quase tudo no multiverso. Apesar de seu aspecto infantil (ele se parece com um garoto humano de oito anos de idade), Balok acaba de completar mil anos. E, mesmo assim, ele jamais deixou de lado um senso de maravilha em relação a tudo o que testemunha – uma sensação constante de perplexidade, de quase êxtase frente às peculiaridades da existência.

- Estamos vendo o dia de amanhã. Nossa Gagarin, toda dourada, e o planeta, todo azul, ao fundo.

- Curioso… você não costuma ver o futuro tão imediato.

- Verdade. Ouça, Paprika. As pessoas estão conversando dentro da Gagarin, falando sobre seus afazeres. O capitão Lowell, na ponte de comando, repassando as diretrizes da missão diplomática com Baltar…

Súbito, um raio despedaçou uma parte da nave – e então, como se eu e Balok também fôssemos atingidos, tombamos sob o impacto do susto.

Uma explosão esmigalhou quase todo o casco secundário – e eu pude sentir o calor das chamas, a dor e o medo… e eu ouvi o grito simultâneo de três mil almas condenadas.

Imediatamente, o casco primário começou a se desprender do que restava do secundário, numa óbvia e desesperada tentativa de fuga. De nada adiantou: outro raio atingiu o disco no instante seguinte, provocando um clarão cegante. Pouco a pouco, a luz se dissipou, dando lugar ao silêncio e ao vazio, e ao terror que eu e Balok compartilhávamos.

Uma nave escura ocupou o espaço em que antes estivera a Gagarin. Como uma gigantesca e sinistra aranha deslizando na escuridão, ela se posicionou à beira do precipício em que estávamos – e, por um momento, foi quase possível tocá-la…

Desloquei-me imediatamente para o espaço-virtual do computador central e acionei o alerta vermelho.

Balok despertou gritando.

2

DRAMATIS PERSONAE

Capitão Freeman Lowell – um homem sério, de olhar comumente triste. Dedica boa parte de seu tempo livre cuidando do pequeno jardim a bordo da Gagarin, auxiliado por três autômatos, velhos companheiros de sua paralela de origem: Huguinho, Zezinho e Luizinho.

Comandante Gaius Baltar – Ele procura enxergar, mesmo nos lugares mais inóspitos, beleza. Baltar crê que sempre há esperança – até nas realidades mais sombrias. “É tudo uma questão de tempo e paciência”, diz. Seu ar messiânico pode ser um inconveniente, mas nunca afetou o desempenho de suas funções.

Tenente-comandante Hari Seldon – um jovem de enorme potencial – e, provavelmente, um gênio. Onde homens comuns enxergam causas imediatas e efeitos pontuais, ele divisa linhas de interação entre as forças sociais, econômicas e psicológicas de uma dada civilização, unificando-as num sistema matemático e erigindo um mosaico preciso de sua história futura.

Cena: a USS Gagarin; ao fundo, as entranhas do corredor interdimensional 1 – 816, pulsando em vermelho e fúria. Parada total.

Na sala de reuniões, os três chegam com expressões preocupadas e carregadas. Evidentemente, nenhum deles me vê sentada com o enorme saco de pipocas e o copo de refrigerante tamanho família. No espaço-virtual do computador central, tão semelhante ao ambiente dos sonhos, a “realidade” é projetada numa enorme tela de cinema.

Baltar: Um golpe de sorte. É o que nos mantém vivos. Se o tenente Balok estivesse acordado, se não estivesse dormindo e sonhando…

Capitão Lowell: A paralela 816, até onde se sabia, estava livre da ameaça de Z’ha’dum. A guerra foi vencida há mais de cinco anos.

Hari Seldon: De acordo com minhas análises, não havia mais do que zero ponto dois por cento de chance de que as Sombras pudessem voltar em menos de quinhentos anos.

Capitão Lowell: Alguma falha em sua psicohistória, sr. Seldon?

Hari Seldon: Ainda estou trabalhando nela, e há muito a ser feito, mas… não, esse cálculo era por demais simples para resultar num erro tão grosseiro. Acredito que há algo mais aqui: um fator externo que não pôde ser levado em consideração pela psicohistória – simplesmente porque era desconhecido.

Capitão Lowell: É também o que acho. E precisamos saber do que se trata. Não podemos dar meia-volta e retornar ao nosso universo.

Baltar: Não seria arriscada a incursão numa região em guerra?

Capitão Lowell: Não me parece que há uma guerra em curso, comandante. Se houve, ela já chegou a termo – e sabemos qual foi o lado vencedor.

Hari Seldon: Concordo com o capitão. Um fator não detectado pela psicohistória aplicada pode ser mais externo e alienígena do que, a princípio, supomos. Pode se tratar de uma grande ameaça a quaisquer outras paralelas.

Baltar: Entendo… Uma invasão de outro universo. Que tragédia… Esperávamos encontrar novos aliados, iniciar contato com as civilizações altamente avançadas desta paralela.

Hari Seldon: De acordo com os dados obtidos com a última expedição, há dois anos, não poderíamos esperar por menos.

Capitão Lowell: As coisas mudaram, senhores – embora isso não seja grande surpresa. A paz é sempre mais passageira do que gostaríamos, o mal está sempre mais próximo do que suspeitamos. Nosso dever, agora, é outro.

Baltar: Equiparei uma sonda com um transmissor e a enviarei ao nosso universo imediatamente, informando à Frota a alteração de status da missão.

Capitão Lowell: Inclua também a informação de que, até segunda ordem, esta paralela está sob bloqueio. Nenhuma outra nave de nosso universo deverá tomar qualquer corredor de extremidade 816.

Baltar: Considere feito. Agora, como faremos para descobrir o que está acontecendo?

Hari Seldon: Não acho aconselhável que enviemos a Gagarin à 816. Se estamos, de fato, lidando com uma civilização que domina a viagem interdimensional, então não será impossível que sua tecnologia detecte a entrada de nossa nave em seu universo. O sistema de intercâmbio massa-energia entre nossas paralelas…

Capitão Lowell: Compreendo as implicações. Seria arriscado mesmo para uma nave auxiliar com tripulação reduzida. Mas não estava pensando em enviar uma nave, sr. Seldon. Precisamos de tempo razoável para a coleta de dados, e também precisamos de qualidade de informação. A mera interceptação das comunicações que cruzam o planeta é insuficiente para o que desejamos.

Hari Seldon: Não entendo…

Capitão Lowell: A idéia me veio antes de nos reunirmos aqui – e já a expus à conselheira da nave. Paprika?

3

- Você não possui treinamento adequado, não está preparada para esse tipo de missão… O que fará se for capturada?

- Estou pronta, sim. E disposta a correr o risco, tenente.

- Por quê?

- Porque sou a única que pode. Porque não quero que nada de mau aconteça a vocês.

Primeiro passo: entre o mundo simulado no computador da Gagarin e os restos do último sonho de Balok, ilhas ainda não submersas no imaginário que sustenta o real.

Por um breve instante, eu vejo a totalidade do multiverso sintetizada em símbolos que a mente humana é capaz de compreender. Eu vejo o grande Sonhador e a forma indescritível de seu sonho.

Minha alma respira o infinito.

- Mas…

- Balok… Mesmo aos mil anos, ainda tem dificuldades com suas próprias emoções?

- Eu não tenho dificuldade com minhas emoções. Estou apenas apontando uma falha óbvia na ação proposta por Freeman.

- Não há falhas. Se eu for capturada, há um plano claro a ser seguido.

Segundo passo: entre o precipício no sonho de Balok e a visão do amanhã-pretérito, o amanhã que não se realizou.

Eu vejo a estrutura cambiante do corredor interdimensional, o caleidoscópio onde tempo e espaço são cores, e as cores são rios que se transformam em mundos e histórias…

Eu sorrio para a luz cálida – porque reconheço nela meu reflexo, porque enxergo em seu âmago a semente de toda a vida.

Com relutância, dou o passo seguinte.

E inicio minha queda rumo à escuridão.

- É mesmo possível viajar entre universos através dos sonhos? Você já o fez?

- Nunca. Mas é possível, sim. Considere que os corredores interdimensionais não são apenas conexões físicas, mas também se definem como passagens metafísicas. Há uma estrutura subjacente à realidade manifesta que pode ser utilizada como via alternativa – e eu poderei utilizá-la tanto para ir como para regressar…

Balok me interrompeu. Seu rosto, projetado para mim na tela de cinema, era marcado por sombras de tristeza.

- Apenas volte inteira, Paprika.

- Não se preocupe. Eu voltarei.

Paralela 816.

Terra.

Eu sinto o cheiro de cadáveres expostos ao sol. O cheiro de uma perversidade que não necessita de máscaras para se ocultar.

A mente antiga e monstruosa percebe minha presença de imediato. Ela me abraça com intenções de arame farpado e o beijo sórdido de um bilhão de caninos pontiagudos banhados em sangue e ferrugem.

No silêncio de pesadelo e de gritos natimortos, contemplo o vazio – não um vazio absoluto, porque algo terrível preenche o vácuo, como gás venenoso impregnando a escuridão.

Aqui não há (não pode haver) vida de qualquer espécie.

Oh, Balok, eu lamento tanto… Porque menti para você. Eu nunca mais verei meu lar novamente.

4

Na NOITE infinita, Por quem brilham as estrelas?

Por vocês, viventes?

Vocês estão SÓS. Sinta o medo.

Sinta o medo.

Bocas imundas vociferam o terror e a maldade, num cântico sombrio e tonitruante. A escuridão está em todos os lugares, em todas as mentes do planeta Terra. Não há sonho que possa me servir de abrigo, não há sonhadores que possam me ajudar. Há apenas destruição. Pânico. Terror.

Estou só.

E, para o prazer da escuridão, eu sinto o medo.

Quem é você ? – a pergunta é feita com pensamentos pontudos de aço, e cada pausa entre as palavras é acompanhada por ácido em meu corpo onírico. Grito um nome qualquer, retenho meu verdadeiro nome em minha garganta. Eu resisto. A escuridão percebe a mentira e me faz vomitar gritos e um Paprika envolto em sangue.

De ONDE você é, Paprika?

- De um mundo distante e morto… Eu não sabia… não desejava entrar em seus domínios.

Você mente outra vez, pequenina. Você vai sofrer.

Sofrer e sofrer e sofrer.

Eu grito novamente. A escuridão gargalha.

Minha mente agora é um livro escancarado, manuseado por mãos sujas e aviltantes. As palavras são examinadas com vagar, arrancadas com brutalidade de seu contexto original. Cada idéia é violentada por olhos supurados de fogo. Cada afeto é cortado por lâminas de indiferença.

Estou na mesa de operações, e o demônio é o cirurgião.

Ainda é a página um. O primeiro parágrafo. Menos de um segundo se passou. Até agora, a escuridão não sabe de onde venho… mas ela não tem pressa.

Ela tem todo o tempo do mundo.

Menos de um segundo se passou…

Então, uma chama, uma luz invade o pesadelo como um raio. Ela me alcança e me puxa – para cima, para baixo, e depois… estou livre! A escuridão urra seu ódio, tenta reaver o controle sobre mim com garras de trevas.

Tarde demais: encontro-me em outra mente – e ela agora está do lado de fora do inferno.

- Calma, você está segura. Vou levá-la à minha cidade – a voz me envolve e me conforta, como um cobertor macio. Eu a aperto contra o peito e choro de alívio.

5

Na Terra Um, alguns já ouviram falar dele. Seu nome atravessa os espaços entre universos como uma força irrefreável – a lenda que desperta admiração… e temor.

Ele possui um poder tão grande que mal pode ser compreendido pela mente humana – e, a despeito disso, a entidade já foi um ser humano. Antes de se tornar um deus, ele era apenas uma criança.

E é como uma criança que Akira se aproxima de mim.

- Você também não é desta paralela, é? – ele pergunta com voz serena. Agora, já percorremos metade de nossa jornada rumo ao buraco negro no centro da Via Láctea. Viajamos mais rápido do que qualquer nave que eu já tenha visto.

- Não. Eu vim para tentar entender o que aconteceu àquela Terra…

- Você teve sorte. Já estava pensando em sair deste universo quando detectei sua presença. É inútil permanecer quando tudo foi tomado pela Eternidade.

- O que estava fazendo aqui?

- Olhe ao seu redor.

A cidade é uma imensa esfera de luz atravessando a noite que nos ameaça. Suas ruas largas e acinzentadas se estendem a perder de vista, entrelaçadas ao horizonte de bilhões de estrelas. Seus prédios, de arquitetura variada e exótica, se fundem em vastos aglomerados sobrepostos de janelas – e em cada janela, um vulto espreita. Emolduradas por cortinas esvoaçantes e melancólicas, milhões de pessoas de diferentes mundos permanecem imóveis, em silêncio, os olhos perdidos uns nos outros, com as óbvias e inevitáveis perguntas mudas pairando no ar: Onde estão nossos amigos, nossas famílias? Por que nós? No silêncio, não há respostas. No silêncio, apenas os olhares se sustentam, pois isso é tudo o que restou a cada um dos sobreviventes: estar no olhar do outro, saber que, se não houver nada além do horizonte, ao menos alguém guardará sua imagem na memória – mesmo que de forma fugidia. Mesmo que você não seja mais do que o vulto sem nome em uma janela.

- É o que posso fazer. Trago o maior número possível de seres conscientes para esta cidade de luz sólida que criei.

Sinto a raiva na mente de Akira. Uma raiva que poderia destruir uma estrela – literalmente. Estranho como tanta paz e tanto ódio possam habitar o mesmo ser… Mas são coisas que não ocupam o mesmo espaço em seu espírito – ele é tão grande quanto uma galáxia, permitindo que não existam conflitos ou contradições. Em Akira, ternura e rancor são duas estrelas distantes uma da outra, de órbitas absolutamente independentes – o que, para o ser humano, seria uma impossibilidade. O coração do homem, pequeno por sua própria natureza, não é capaz de dissociar os elementos que o compõem. Por pura falta de espaço, mistura-se tudo, e as órbitas de todas as coisas são afetadas pelas menores fagulhas do cotidiano.

- A Eternidade, como você os chama… também invadiu sua paralela?

- Há mais de cem anos. Eu e Tetsuo lutamos contra eles para defender nossa Terra, mas foi inútil – suas naves possuem escudos defensivos que repelem nosso poder, e seus ataques com a Luz Negra impediram nossa aproximação para resgatar as pessoas no planeta. No final, Tetsuo foi destruído, e eu aprendi a lutar de outra forma: indo, como fiz há pouco, ao próprio coração das trevas. Se suas naves me impedem de tomar qualquer iniciativa mais arrojada, ao menos consigo penetrar no espaço-tempo colapsado que serve de abrigo ao fragmento de Eternidade presente na paralela invadida.

- Tetsuo era como você?

- Sim. E também mais impetuoso, mais impulsivo – o que custou sua vida. Desde então, tenho seguido os passos de algumas das forças enviadas pela Eternidade, tentando impedir que todos sejam transformados em ultraguerreiros pelo fragmento. Com esta cidade-arca, levo os sobreviventes de cada paralela a um universo não infectado, na esperança de que um dia isso tenha fim.

- Universo não infectado? Você fala como se essa… “Eternidade” fosse uma doença.

- É uma doença. Pense no multiverso como um organismo – dotado tanto do poder pulsante da vida quanto da tendência a se manter congelado em silêncio e escuridão. A Eternidade é a encarnação máxima dessa tendência – as trevas conscientes de que seu amplo domínio é ameaçado pela disseminação da vida. Trata-se, se você preferir, da resposta final à equação da anti-vida.

- Não é, então, uma civilização?

- Definitivamente, não. Meio bilhão de anos atrás, a Eternidade existia como um conceito unificado vagando em algum universo em que a vida jamais se desenvolveu. Um dia, esse conceito pré-consciente se estendeu a outros universos – e descobriu que havia um distúrbio na harmonia: havia caos no sistema. O conceito se tornou consciência – e a consciência se tornou receio, aversão… ódio.

“A vida precisava ser destruída. A possibilidade da vida precisava ser erradicada para que o sistema voltasse a ser o que era: um paraíso para a escuridão interminável – pois nas trevas o tempo não possui referências; nas trevas, o espaço não possui relevância. A vida iluminou a passagem do tempo, criou a noção do espaço. A luz da vida trouxe a maldição da finitude… E contra ela, a Eternidade se rebelou.

“Em seu universo original, o ódio se tornou corpo – um corpo feito de sombras e músculos, perversidade e ossos. Soldados atrozes se multiplicaram e formaram exércitos tão extensos quanto galáxias, criando o impiedoso braço bélico da Eternidade, o Ultradomínio. Suas trilhões de naves predadoras eclipsaram os sóis de mundos habitados em todo o multiverso; seus quintilhões de ultraguerreiros marcharam sobre os cadáveres dos heróis caídos de planetas incontáveis.

“Eu vi suas naves – monstros túmidos de rocha incandescente, alguns maiores do que Phobos. E eu vi os olhos de alguns desses soldados, Paprika… Relâmpagos brilhando na face carbonizada por pesadelos e atrocidades. Eles não querem apenas destruir a vida. Eles também desejam puni-la. Eles também almejam castigá-la… por ela ousar ser parte da existência… e por ela ser a responsável pela criação de sua própria desgraça – pois não há nada mais doloroso para os soldados da Eternidade do que a consciência de que eles estão paradoxalmente vivos.

“O Ultradomínio se lançou em sua missão com a certeza de que não levaria mais do que alguns poucos milhares de anos para alcançar êxito. O multiverso, contudo, se mostrou muito mais repleto de caos do que a Eternidade supunha. Mesmo com seu exército infinito, o extermínio completo da vida poderia levar o tempo de existência de um universo… algo inaceitável para uma força que abomina a historicidade e a consciência das eras.

“Além disso, há em uma paralela uma força contrária ao Ultradomínio capaz de oferecer resistência real. Lá, a guerra já dura mais de dez milhões de anos terrestres – e nenhum dos lados dá sinais de enfraquecimento. Acredito que, hoje, a maior parte da ultrafrota original está concentrada apenas nesse universo…

“Foi assim que a Eternidade decidiu usar a própria vida a seu favor. Ao invés de destruí-la, ela passou a conquistá-la. Tecnologias e armas de destruição em massa das paralelas subjugadas são incorporadas a frotas destacadas do Ultradomínio, e os sobreviventes, geralmente os mais fortes dos mundos arrasados, são submetidos à escuridão – um fragmento da Eternidade que se faz presente em cada ultrafrota. Depois que suas personalidades são lenta e dolorosamente devastadas, eles são transformados numa linhagem impura de ultraguerreiros e enviados às batalhas em outros universos.

“Assim, a ‘infecção’ se alastra mais rapidamente, sem que as forças primordiais do Ultradomínio tenham participação direta. Claro que uma parte de sua frota original entra em cena quando a resistência é muito maior do que a esperada – mas isso raramente acontece. A conquista de um aglomerado de paralelas sempre começa com os universos que possuem as defesas mais frágeis; depois, com a ultrafrota fortalecida pelo incalculável montante de despojos, as civilizações mais poderosas são atacadas. Inexoravelmente, as fileiras de peças de dominó são derrubadas”.

- Como sabe de tudo isso?

- Sempre que entro em contato com um fragmento da Eternidade, consigo dele uma informação, uma idéia, um rastro de memória.

- As naves sombras que estão ao redor da Terra…

- Naves de uma outra paralela conquistada, agora parte do Ultradomínio. Elas foram alteradas, e possuem os mesmos escudos e quase o mesmo poder de fogo dos encouraçados rochosos.

Uma vez mais, volto a atenção para as janelas da cidade de Akira, para os olhares sucumbidos e amedrontados dos que foram resgatados. O horror me dá náuseas e aperta minha garganta.

- Preciso voltar à Gagarin. Mesmo que não haja esperança, mesmo que estejamos condenados ao padecimento e ao extermínio… preciso avisar as pessoas de meu universo. Mas estou fraca demais…

- Não se preocupe. Permite?

Ele estende a mão até minha face e a toca. Diviso que um suave brilho o envolve por inteiro.

- Certo. Sei o caminho que devo tomar.

Adiante, o buraco negro supermassivo já ocupa toda a extensão do horizonte da cidade. O disco de acreação deste monstro é utilizado por Akira para que as imensas energias gravitacionais aqui presentes ocultem do Ultradomínio os vestígios dos portais interdimensionais que ele mesmo abre no tecido do universo.

A entidade sorri.

- Você se sentirá melhor quando deixarmos esta paralela, Paprika.

Mas não há tempo para mais nada: as trevas caem sobre nós.

- O que aconteceu? – a pergunta é repetida por todos os cantos, ecoando nos limites de uma cidade subitamente invisível.

A escuridão transforma a realidade em um mausoléu repleto de fantasmas indistintos e aterradores. As formas se perdem, dão lugar a um alvoroço agoniado e ao clamor em uníssono dos desesperados.

A voz atemorizada de Akira estremece minhas pernas:

- Eles nos acharam.

6

Sete naves sombras do Ultradomínio nos cercam – como sete montanhas, elas impedem nosso avanço, nossa fuga. Aparentemente, a Eternidade julgou que já era hora de dar um basta às intervenções de meu amigo.

- Podemos sair dessa, tovarishch? – Uma mulher se avizinha de nós e faz a pergunta com frieza. À luz mortiça irradiada por Akira, suas feições se distinguem por uma calma que surpreende (E só então percebo que, pela primeira vez em minha existência, compartilho o espaço físico com seres de carne e osso. A cidade, ao que tudo indica, consegue fundir o mundo material e o mundo dos sonhos).

- Poderia escapar de duas, talvez três delas, Ivanova. Contra sete, não tenho chance.

- Bom… – a mulher suspira – iremos oferecer alguma resistência? Dar a eles uma luta da qual não se esquecerão?

Akira a observa com surpresa. Agora, todas as suas energias estão direcionadas para o escudo ao redor da cidade, que enverga sob as poderosas rajadas de Luz Negra que saem de enormes protuberâncias nas extremidades das naves.

- Não é possível… E mesmo que fosse, que diferença faria? No final…

- No final – a voz de Ivanova se ergue –, se formos simplesmente capturados, seremos transformados em soldados do Ultradomínio. Mas se conseguirmos feri-los… talvez eles queiram nos destruir.

- Ela está certa – outro vulto se aproxima. Seu tom é firme e seus olhos rubros são pontos brilhantes dardejando astúcia. O queixo proeminente dá ao seu rosto alienígena um aspecto definitivamente hostil, mas este ser não é do tipo que se define pelas aparências – Não desejo ser um instrumento do inimigo.

- G’Kar… – Akira se curva, emitindo um gemido de dor. A sucessão de ataques parece drenar suas forças rapidamente – Eu gostaria de poder fazer mais…

- Há uma chance – Por um momento, não acredito em meus olhos. Sobre nós, um anjo diáfano fala com uma voz imperiosa, que parece fazer parte de sua própria áurea reluzente.

- Kosh… Diga-nos o que pode ser feito.

- A menina carrega um pesadelo.

Ivanova e G’Kar, finalmente, parecem se dar conta de minha presença.

- É verdade. Não consegui acessá-lo quando estava no fragmento porque…

“Estava assustada demais” seriam as palavras mais adequadas. Balok tinha razão: eu não estava preparada… Mas quem estaria?

- … porque fui pega de surpresa.

- Do que se trata, criança? – G’Kar me observa com interesse.

- É um dispositivo… um Pesadelo de Munch. Uma condensação de alucinações que substituem a realidade mental do alvo por um padrão contextualizado de fantasias angustiantes. Funciona apenas por alguns segundos – mas é o suficiente para que se possa escapar do inimigo. Não sei dizer qual efeito teria sua utilização no fragmento da Eternidade. As alucinações criadas são proporcionalmente mais sombrias do que a realidade que se apresenta…

Sem aviso, um filamento de luz vindo de Kosh envolve meu corpo. Por instantes, ficamos paralisados, unidos por essa ponte fulgurante. Enfim, a luz se extingue. O anjo parece desolado.

- Seria uma gota de fel em um oceano tóxico.

Na cidade, os gritos se intensificam. Com o tremor provocado pelos contínuos ataques, às vezes parece que nos falta até mesmo o chão, e tenho a sensação de que cairemos na escuridão definitiva da singularidade.

- Você pode escapar, garoto. Abandone a cidade-arca, leve os poucos que puder carregar. Já será alguma coisa.

Akira cerra os olhos. Lágrimas de lava correm em sua face, queimando a pele, criando sulcos enegrecidos na carne.

- Não deixarei ninguém para trás, Ivanova. São milhões. Somos tantos…

Do lado de fora, as sete naves, implacáveis, dão prosseguimento à investida, expelindo raios que mais se parecem com monstruosos tornados. Sinto a presença do fragmento da Eternidade, ansioso por destruir Akira – mas isso será apenas um bônus, um ganho menor. Seu principal objetivo é me capturar novamente. Para o fragmento, não há nada mais importante do que obter todas as informações que tenho comigo.

O que não sinto, no entanto, é o que me intriga: a escuridão não demonstra qualquer interesse pelas pessoas que aqui estão, potenciais ultraguerreiros em suas próximas campanhas.

- Como conseguiu me materializar nesta cidade, Akira?

- Como assim? Eu… ora, você não é diferente dos demais.

- Errado. Não sou de carne e osso. Sou uma presença virtual. Um avatar consciente.

- Não… sabia disso.

Kosh e eu trocamos olhares. Ele já compreendeu tudo – o que significa que Akira também.

7

- Estou morta? – Não há mais sinal de calma aparente em Ivanova.

Tento confortá-la – mas a verdade não costuma ser reconfortante.

- Você não é a verdadeira Ivanova. É parte do sonho de Akira.

Ele está deitado no chão, o olhar perdido entre a dor e a derrota.

- O que isso quer dizer? – a entidade se indaga – Não salvei ninguém? Tudo não passou de uma mentira?

- Você capturou as marcas anímicas de todos os que aqui se encontram. Seu poder deu a eles a ilusão da vida, e isso o fez se sentir melhor. Provavelmente, os “sobreviventes” que estão em sua paralela não infectada desaparecem tão logo você os deixa para trás… e surgem outra vez quando retorna. Como fantasmas que só se revelam quando você olha diretamente para eles.

- Tirei todos da escuridão, assim como fiz com você, Paprika.

- Fui a única a ser salva de fato – porque não havia um corpo que ficasse para trás. Com os outros, você arrancou suas impressões psíquicas do fragmento da Eternidade, mas seus corpos e espíritos permaneceram. Todos se transformaram em ultraguerreiros.

A voz de G’Kar não carrega tristeza ou ressentimento – ele (ou o que há de G’kar neste ser) se define apenas pela compaixão:

- Com as impressões psíquicas, você criou cópias… e fez questão de se esquecer de que eram cópias… e com elas se deu a esperança…

- …“de que um dia isso tenha fim” – completa Ivanova. Ela se ajoelha e, com os braços em torno de si mesma, num abraço doído, fita Akira por alguns segundos.

- Você agüentou por tempo demais esta cidade sobre os ombros. É hora de abandonar os fantoches.

Com esforço, Akira se ergue – no entanto, não mais como uma criança: agora, é um homem. Não há sinal das chagas provocadas pelas lágrimas em seu rosto.

- Eu os imaginei com o coração.

Ao nosso redor, as miríades de fantasmas desaparecem, e seus olhos são como estrelas que se extinguem à primeira luz da alvorada. Kosh, G’Kar e Ivanova são os últimos – eles partem em paz.

- Precisamos ir, Paprika. Os escudos da cidade não resistirão mais por muito tempo.

- Espere.

Retiro de dentro do coração um pequeno cubo translúcido, depois manipulo engrenagens que apenas meus olhos enxergam. O cubo se cobre de cores variadas, então passa a emitir um som agudo que, aos poucos, ganha intensidade – como um grito que vai crescendo no peito, e que depois explode em notas de desespero na garganta.

- Talvez seja uma gota no oceano… Mas não custa dar ao demônio o gosto de um pequeno pesadelo.

Damo-nos as mãos e, com a velocidade do pensamento, deixamos as sombras para trás.

*

A imagem agourenta do buraco negro é minha última lembrança desta paralela condenada. Ele agora jaz no centro de minha alma, como o terrível prenúncio do que está por vir.

Cedo ou tarde, o Ultradomínio nos encontrará e arrastará a todos para a escuridão. Derrotados, seremos privados do que mais importa: a liberdade, o amor, a vida. Nossas pequenas, breves histórias serão esmagadas como flores frágeis sob as botas negras de soldados impiedosos.

Não, as estrelas não brilham por nós. As estrelas não sorriem quando estamos felizes. Elas são as testemunhas distantes e impassíveis de nossos enganos: porque não temos controle de nada. Como os espectros de Akira, somos apenas o sonho do mundo.

Folhas na ventania.

CARLOS BITTENCOURT